quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Fidelidade x Lealdade





O assunto começou ao tratar do meu último texto no Barba Feita, aquele em que dissertei sobre o meu novo aparelho de celular, o Pop 4, da Alcatel. Estava contando porque fui parar no Windows Phone e lá fiquei por tantos anos (não era paixão alguma pela Microsoft, mas, sim, fidelidade à Nokia, marca que utilizo desde o meu primeiro tijolão, em 2001). Como falei no meu texto da semana retrasada (aqui os textos se interligam que é uma beleza), no grupo dos colunistas do Barba Feita no Facebook Messenger vale tudo e falamos de absolutamente qualquer assunto sem pudores ou censuras, o papo descambou para a discussão dos limites de fidelidade e lealdade. E não apenas a marcas de telefone.

Não chegamos a um consenso. Aliás, acho que sequer tentamos. Rolou um coletivo: “ah, depois discuto esse lance de fidelidade x lealdade. Hoje tô cansado” (já era madrugada). Mas no mesmo momento, dei uma rápida googlada (como a gente viveu tanto tempo sem isso?) e, segundo o nosso oráculo onipresente e onisciente, fidelidade é a caraterística do que é fiel, do que demonstra zelo, respeito por alguém ou algo. É também a constância nos compromissos assumidos com outrem. Pode ser, ainda, sinônimo puro e simples de lealdade.

Fidelidade, portanto, é algo subjetivo. Mais ainda, é algo empírico, individual e intransferível. Aquilo que é ser fiel, para uns, não é para outros. Quantos relacionamentos não acabam por uma simples mensagem de WhatsApp ou uma foto via inbox do Facebook sem que algo de concreto tenha se consumado? E quantos não resistem a aberturas ou flexibilizações, tais como ménages, suingues e afins? Será que quem adota essas práticas em seus relacionamentos se sentem infiéis? Será que os parceiros que veem seus respectivos fazendo sexo de forma consentida com outros enxergam infidelidade no ato tanto quanto aqueles que não toleram sequer uma mensagem mais íntima virtual ao flagrar uma troca de nude ou uma provocação mais picante, por exemplo?

Certa vez ouvi da psicóloga e sexóloga do programa Amor & Sexo, da TV Globo, Regina Navarro Lins, que a monogamia obrigatória tornou os relacionamentos humanos ocidentais mais frágeis. Que a pessoa, independentemente do que optasse com o seu parceiro, deveria se fazer apenas duas perguntas: 
  1. Eu me sinto amado(a) pelo(a) meu(minha) parceiro(a)? 
  2. Eu me sinto desejado(a) pelo(a) meu(minha) parceiro(a)? 
Uma vez respondidas essas questões positivamente, as pessoas não deveriam se importar com o que o outro faz ou deixa de fazer com terceiros (ou quartos ou quintos), de acordo com Regina. Insiro aí mais uma pergunta, como bem nos lembra a definição do Pai Google: “Eu me sinto respeitado(a) pelo(a) meu(minha) parceiro(a)?”. E também: “eu trato o meu(minha) parceiro(a) como uma prioridade na minha vida?”

Acredito naquela velha máxima: “o combinado não sai caro”. Infidelidade, para mim, é tudo o que está fora do que é acordado pelo casal – inclusive se esse casal é apenas de duas pessoas ou se há outras formações, como os mais modernos trios ou quartetos. Os integrantes podem participar de orgias todos os dias e não se considerarem infiéis; assim como uma fidelidade pode ser ferida, sim, por uma safadeza virtual, se um dos lados da relação se sentir desrespeitado com isso.

E, de fato, há aqueles que não são fiéis, mas são leais. É uma velha alegação quando se há uma pulada de cerca não-consentida. Justo ou não, é um argumento. Mas e quando se é fiel, mas não leal ao seu parceiro? Quando se mantém dentro do padrão normativo beato, casto e monogâmico, porém se deseja ver a pessoa longe, sem sequer qualquer respeito, amor ou atração? Quando se sustenta uma relação simplesmente pela vontade se não se ter uma velhice solitária ou mesmo ser barrado na porta do Céu quando já se vive um inferno aqui na Terra? O que lhe parece mais digno? O que lhe parece mais justo? O que lhe parece mais sincero?

Relacionamento é como uma impressão digital: cada um tem o seu. Dentro dos seus meandros e vilosidades, encontramos nossa identidade. E tal qual uma impressão digital, que pode se modificar após anos de calos, feridas e outras intervenções, uma relação também pode. Alguns casam esperando que o outro mude e ele não muda. Outros casam esperando que o outro não mude e ele muda. O importante é não simplesmente depositar no outro as suas expectativas pura e simples. Sentar, conversar e entender, por mais duro e revelador que seja, é o melhor caminho.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: