sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Já Vivemos Tudo na Vida?





Em  Só as Mães São Felizes, uma das canções mais fortes de Cazuza e Frejat, é dito que as pessoas velhas vão perdendo a esperança “com seus bichinhos de estimação e plantas... já viveram tudo e sabem que a vida é bela”.  Há um quê de contraditório e que é exatamente o que intriga na canção.

As pessoas mais velhas criam essas rotinas.  Precisam acordar obrigatoriamente às seis, mesmo que não tenham nada para fazer.  Preparam o café, lavam a louça, cuidam dos passarinhos, limpam o cocô e trocam a água do cachorro, fazem o almoço, lavam a louça, tomam o café da tarde, assistem TV, regam as plantas, se espantam quando notam que o botão da roseira se transformou em uma linda flor, tomam banho, jantam, cochilam no sofá e dormem às nove e meia da noite.  De vez em quando, quando saem da rotina, andam até à praça, tomam sol ou vão ao consultório para fazer exames de rotina.

Já viveram tudo. 

Mas na semana passada, quando fui levar uma tia na rodoviária e, na volta, resolvi pegar o VLT para o Centro, meu entendimento mudou.  Um casal de velhinhos sentou ao meu lado e pude ver no olhar dos dois o quanto eles ainda precisavam viver intensamente a vida.  Certamente já viram de tudo um pouco.  Mas o tudo é inesgotável.   

Eles estavam maravilhados com o veículo-leve-sobre-trilhos, coisa que nós achamos bacana mas cinco minutos depois já foram condensados na nossa massa informacional-tecnológica cada vez mais sufocante.  Pude perceber, pelo olhar curioso e brilhante dos dois, que, a cada paisagem, parecia que um novo horizonte estava prestes a ser desbravado.  Os cenários da Gamboa e Saúde, reconhecidos pela frágil memória, resgataram sorrisos tímidos com uma ponta de lascívia.    

Por aquele lado escuro e selvagem, devem ter presenciado Madame Satã, filho de Iansã e Ogum e devoto de Josephine Baker, defender mendigos e prostitutas.  Também choraram num banheiro sujo e se recusaram em ver a face de Deus... Tragaram o mesmo cigarro com Cartola e beberam do mesmo poema de botequim de Zé Kéti.  No novo Museu do Amanhã, com as asas metálico-solares sob o espelho d´água, uma surpresa onomatopaica ressoou.  Pareciam duas crianças, ávidas pelo conhecimento.
“Como isso aqui mudou!”
Por aqueles caminhos, também devem ter traído os melhores amigos, transado com cadáveres e sonhado em serem currados por animais.  Ou ainda flertado o desejo incestuoso edipiano.   Cazuza finalizou dizendo que “só as mães são felizes, pois não podem mudar a vida”, mas como ele também disse, “o tempo não pára”... E o tempo está intrinsecamente relacionado à vida.  Qualquer um de nós pode abreviar essa relação, mas, infelizmente para eles, há uma contagem regressiva incontestável.  O grande momento da vida vai chegar, mas ainda há muito, muito mais a aprender.

Afinal, a vida é bela.
Foto de Abertura: JR Oliveira

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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