domingo, 16 de outubro de 2016

Metáforas [ou (Porque) A Delicadeza Se Esconde Nos Pequenos Suspiros da Alma]





Deu dois passos sobre os cacos do seu coração que ainda ousavam ficar nos cantos do seu quarto. Precisava ver o sol, precisava abrir a janelas - era inevitável passar por ali. As persianas sentiram o toque da sua mão pela primeira vez em vários dias. A luz entrou como uma calmaria, levantando a poeira fina que teimava em não ver. 

Arrancou do peito o suspiro amargo da desilusão que já deveria ter sido extirpado, mas que teimava em não ir embora, na esperança de ser esquecido, na iminência da ressurgência. 

Levantou o queixo na direção do vento que entrava pela janela e deixou-se, sentindo os pelos da barba se moverem sem muita direção. Um deles permaneceu imóvel, podia perceber. Ficou assim algum tempo. Pensando na determinação daquele pelo. Loucura - chegou à conclusão depois de alguns minutos. Havia algo à sua frente que merecia mais atenção. 

Um cheiro que naquele momento lhe parecia indecifrável evocou memórias tenras da relação que não mais havia. De momentos leves e singelos - curtos, mas duradouros. Quis fugir das lembranças - mas lhe era impossível. Só restou parar, respirar fundo e aceitar o passado. Suspiro. Só lhe restou aceitar o passado. 

Lembrou do momento de virada - quando a realidade se tornou presente e o amor foi declarado passado. Temeu pelo futuro. Já não teme mais. Decidiu. 

Continuou no caminho que seguia. Olhar a janela. Com outros olhos. Diversos daqueles com os quais tinha acordado. Diversos daqueles de algumas semanas. Diversos daqueles que se lembrava. Mas igualmente seus. Seus. De mais ninguém. Seus. Sentiu-se feliz. Seus. Repetiu mentalmente: "meus". Ousou repetir de alto e bom tom: "Meus". E sorriu pela primeira vez em sua memória recente. "Meus". 

Viu pessoas sem camisa aproveitando o sol. Viu mães empurrando carrinhos de bebê enquanto conversavam com vizinhas a caminho do mercado. Um caminhão de entrega parado em lugar proibido. Alguns pombos cruzando o ar. Carros buzinando. Crianças correndo na saída da escola. A vida como é, como era, como será. 

Um carrinho de churros aparece na esquina. É a deixa dos pequenos momentos, dos prazeres singelos, da alegria latente, da liberdade das coisas que não significam muito aos outros, mas que fazem-nos sentirmos felizes. Dirigiu-se à porta. 

Sem hora pra voltar. 

Deixou a janela aberta. 

Leandro Faria  
Seu Gui do Armazém é o alter-ego de Gleison Santos. Ou talvez seja o contrário. Quem poderá saber?
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