segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Direito de Fala (e Também o de Calar a Boca!)





Sabem aqueles grupos no WhatsApp em que estamos todos inseridos, falando sobre assuntos aleatórios, que vão desde as besteiras cotidianas passando por política e assuntos mais sérios? Eu tenho alguns no meu aplicativo, com pessoas diferentes e todos me divertem e servem para me deixar próximo dos meus amigos, que podem estar aqui no Rio ou espalhados por esse mundão. E foi uma conversa com os meus suricatos preferidos, que começou via WhatsApp, que me inspirou a escrever esse texto, já que o assunto direito de fala veio à baila.

Apenas para explicar, o conceito de direito (ou lugar) de fala é muito simples. Segundo ele, somente quem tem propriedade para falar sobre determinado assunto é quem vive e sente na pele a opressão. Por exemplo:  não cabe a um branco questionar ou não a existência do racismo, uma vez que ele não é negro e nunca sofreu com o problema; não cabe a um homem desmerecer a luta das feministas, já que ele é homem e privilegiado por ter nascido nessa condição; não cabe a uma mulher branca ou a um homem negro falar sobre os problemas das mulheres negras, já que é esse grupo em específico um dos que mais sofrem preconceito de diversos outros grupos da sociedade.

O assunto é polêmico. E, depois de falar muita merda dar muita opinião desnecessária em assuntos que não me diziam respeito diretamente, tenho exercitado o meu direito de calar a boca ou de, no mínimo, me colocar no lugar do outro. Me pergunto sempre: o que eu efetivamente sei sobre o assunto? Minha opinião é realmente necessária? Como eu já disse outras vezes, desconstruir-se é preciso e podemos (e devemos!) fazer isso diariamente.

E chegamos assim ao tópico em questão e que motivou a coluna de hoje aqui no Barba Feita. Meu amigo (e antigo colunista aqui do Barba), o Vinicius Melo, postou em sua timeline do Facebook um vídeo falando sobre a cobrança entre os próprios gays pela busca do corpo perfeito. Junto com o vídeo, um comentário simples do Vinicius: "Comprovando o que eu sempre falo: ser gay não é fácil." E seria apenas isso, se um comentário de uma mulher heterossexual e branca, aparentemente feminista, não tivesse gerado uma enorme discussão no post. O comentário?
"hahahahahahaha coitados dos homens (sarcasm)"
Poderia ser apenas uma brincadeira, se ela não tivesse ofendido aos homens gays a que a postagem do Vinicius foi direcionada. A postagem não falava sobre mulheres. A postagem não falava sobre como ser gay era difícil em comparação com ser mulher. A postagem sequer falava ou citava ou fazia supor que qualquer pessoa que visse o vídeo se lembrasse de como as mulheres sofrem. Mas alguém, que podia ter calado a boca, resolveu se manifestar e dar sua opinião desnecessária sobre um assunto que não lhe dizia respeito. Eis um exemplo clássico do que eu chamo de direito de calar a boca.

Parece que vivemos em uma época em que todas as nossas opiniões são necessárias e relevantes. O Glauco Damasceno, em sua coluna da semana passada aqui mesmo no Barba Feita, falou sobre o assunto usando uma metáfora maravilhosa com abelhas e eu recomendo fortemente a leitura do texto dele. Mas aqui eu não vou usar metáforas e vou dar um spoiler pra você, que acha que sua opinião sobre qualquer assunto sobre o qual você não tem familiaridade é relevante: fica quieto, o que você pensa sobre como as outras pessoas vivem ou agem não interessa a ninguém. 

Acho a internet uma ferramenta maravilhosa. Ela liga as pessoas, nos mantém informados, colocou o mundo ao alcance de um clique. Mas nos deu a falsa esperança de que podemos emitir opinião sobre qualquer assunto como se fôssemos especialistas de tudo quando, na verdade, não sabemos absolutamente nada. A tranquilidade de digitar ~opiniões~ pelo teclado do nosso smartphone, a qualquer hora ou qualquer lugar, nos ilude como se essas ~opiniões~ fossem realmente necessárias ou sequer relevantes. Não são.

O direito de fala é um termo bastante interessante e da moda, que deve sim ser respeitado. Mas uma dica pra vida e que, pensando bem, foi minha mãe quem me ensinou: não se meta onde não é chamado, você vai evitar problemas!

Ela que não me leia, pois vai ficar toda se achando, mas no final das contas a verdade é apenas uma: sábia era a minha mãe.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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