sábado, 15 de outubro de 2016

O Meu Partido é Um Coração Partido





Definitivamente, estou farto dessa briga política sem fim que tomou conta do dia a dia das pessoas em manifestações e debates Brasil afora e, principalmente, nas redes sociais. Até quem nunca deu a mínima pra Política como eu (me chamem de alienado à vontade, prefiro) acabou se contaminando. Mas agora chega, saturei, não tomarei mais partido de nenhum lado, nem Esquerda, nem Direita. Que matem-se entre si, que eu quero estar bem longe dessa esquizofrenia, que no final das contas não leva a lugar nenhum.

Primeiramente, é bom deixar claro que eu fui criado dentro de preceitos religiosos que pregam a total neutralidade política. Dessa forma, cresci mesmo alienado e, diante do pouco que entendo do assunto hoje, preferia ter continuado. No entanto, descobri que Política, algo que eu abominava por total falta de conhecimento, pode ser delicioso de se conversar e conhecer a fundo. Mas o país vive um momento político tão grotesco, que qualquer pessoa com o mínimo de sanidade e bom senso se recusa a discutir sobre. Todo mundo se odeia, se agride, as ruas e as redes sociais viraram um pandemônio, um verdadeiro campo de guerra.

É tudo tão passional, que mesmo um ser como eu, que até hoje justifica o voto, não consegue deixar de tomar partido. E nisso de tomar partido, você vai sendo dominado por uma irritação e uma raiva que não eram suas, que eram desconhecidas pra você. Uma raiva de quem pensa diferente. Porque mesmo não entendendo nada, você sempre acha que está com a razão, porque as pessoas que você gosta, convenceram você de que o partido tal é o mais justo, e essas pessoas são tão legais, inteligentes e admiráveis. E aí começa a parecer que só as pessoas legais são daquele partido que você começou a defender e já está quase se sentindo parte dele. Aí começa a rolar uma indignação sempre que você ouve ou lê algo contra o partido ou posição política que te parece mais bacana. E quando se dá conta, você tá querendo xingar, ofender, partir pra briga pra defender sua opinião, e acaba se transformando em tudo que sempre detestou em termos de Política.

Antes que a metamorfose se completasse em mim, me dei conta do perigo a tempo. Acontece que as minhas opiniões políticas são todas baseadas em intuição e simpatia. Nessa minha relação superficial com a política e seus candidatos, sempre simpatizei com Lula e Dilma. Simpatizava também com Bill Clinton e simpatizo absurdamente com Obama, logo, nessas eleições dos Estados Unidos, minha torcida vai para Hillary Clinton e, naturalmente, não consigo nem olhar para aquela cara amarela do Donald Trump; George W. Bush era outro que não me descia. Sentimentos puramente baseados em simpatia, que em algum momento sempre me fazem acreditar que eu estou pendendo para o lado certo, se é que esse lado existe em se tratando de Política. Mas voltando ao Brasil, simpatizar com Lula e Dilma parece que me faz automaticamente simpatizar com o PT e a Esquerda. O discurso desse movimento realmente me fascina, sempre me parecendo mais lúcido, justo e ponderado do que o outro. Mas justo e correto são adjetivos tantas vezes muito distante da Política, e quando o que parece o certo perde espaço para o que parece terrivelmente errado, odiar o outro e tornar-se agressivo vira uma bola de neve. Começamos a querer ganhar no grito. E eu pergunto: resolve o que? Onde vamos chegar com tanta ira?

Eu já tenho uma tendência absurda a querer convencer os que pensam diferente de mim, de como minhas opiniões são as mais razoáveis, e já ia caindo na armadilha de fazer o mesmo sobre assuntos políticos, mas recobrei a consciência. Política é pesado demais pra mim, não vale a pena. Meu sinal de alerta sobre odiar os que tem visões políticas diferentes da minha tocou quando comecei a perceber a grande decepção que sentia ao descobrir que pessoas queridas e admiradas por mim não compartilhavam das mesmas ideias que meus amigos petistas e de esquerda, e que eram os chamados "coxinhas". Imediatamente pensava: Como assim? Essa pessoa não pode pensar dessa maneira, eu gosto dela! Poderíamos até nunca ter falado efetivamente sobre Política, mas bastava uma postagem no Facebook pra cair por terra todo o carinho pela pessoa. Que insano isso!

Esse ano eu desfiz uma amizade, dentre os diversos motivos para tal, mas a gota d'água foi a ferocidade com a qual o amigo em questão era contra o governo Dilma e o PT, logo, a favor do impeachment. Durante anos de amizade nunca havíamos discutido Política, eu nem fazia ideia de suas posições, que vieram à tona diante do caos que se instalou no país. Era um amigo muito próximo, e quando a amizade foi rompida eu estava cheio de mim, certo de que havia agido da melhor forma, coberto de razão. Mas imagina romper com todas as pessoas que você gosta porque elas tem ideias contrárias às suas sobre qualquer assunto? Você não faz isso, faz? Por que a Política nos deixa tão inflamados?

Como pessoa sensata que tento ser, o melhor pra mim é aceitar os fatos, ainda que lamentáveis. Sem rompimento de amizades, sem deboches, sem agressões verbais e muito menos físicas, porque tudo isso já foi longe demais. Parem de alimentar essa rixa política entre Petistas e PSDBistas, esquerdistas e direitistas, socialistas e capitalistas ou qualquer outro 'ista' que exista. Esta é uma guerra sem fim.

Dilma foi defenestrada da presidência do Brasil. Foi revoltante, triste e lamentável. Os que eram contra o impeachment, como eu, sofreram com a decisão, expuseram sua indignação através de manifestações e discursos inflamados, e ergueram suas vozes com um lema que entrará para a história, o FORA TEMER!, mas agora me parece que está na hora de superar, se não no coração, pelo menos no discurso. Não adianta mais ladrar, Michel Temer é o novo presidente do Brasil e só sairá daqui à dois anos, aceita que dói menos.

Mas não adianta, né, a história começa a se repetir. Agora com a eleição de João Dória para prefeito de São Paulo. Vamos lá, vou tentar me fazer entender de novo, se ainda não deu pra compreender até aqui. Eu torcia pela reeleição de Fernando Haddad ou a vitória de Luíza Erundina, não gostava da ideia de ter Russomano como prefeito, achava um absurdo a candidatura de Dória e Marta Suplicy não fedia nem cheirava. Estava tão certo que Haddad se reelegeria, que quando soube da vitória de Dória, fiquei atônito. Novamente me veio aquele desejo de praguejar contra os milhões que o elegeram, mas daí o bom senso me fez questionar: do que adianta? Vamos ter que entubar mais essa. Em uma fase política tão tenebrosa não é de se admirar que um milionário apresentador de TV se eleja prefeito da maior cidade do país.

Mas o fato é que João Dória se elegeu, e isso me parece um grande erro, mas o meu coração partido não vai mudar os fatos. A entrevista que Bia Dória, a futura primeira-drama, deu à Folha de São Paulo, também não vai contribuir para tirar o cargo de seu marido, por mais que seja difundida nas mídias como algo desastroso, o que realmente é. A gritaria e revolta contra o que já está decidido e sacramentado me parece como nadar contra a corrente, só pra exercitar, como cantou Cazuza, porque efetivamente não adianta nada. Então paremos de nos desgastar, de sofrer e de sentir tanta raiva. Aceitemos que as coisas são como são e daqui a pouco o jogo vira, sem tanta briga, sem precisar expormos tanto nosso lado mais feio.

Só quero reiterar que não tenho lados na política. Quase me deixei influenciar pelo cenário político que se abateu sobre nós esse ano, essa grande insanidade, e escolher um lado, mas o meu partido é um coração partido mesmo, lembrando novamente Cazuza, e manter-me neutro nessa questão é o melhor lado que posso escolher. No entanto, como já disse, simpatizo com todas as ideias e os discursos da Esquerda, e como simpatia é quase amor, prefiro não brigar, nem disseminar ódio por qualquer coisa que seja.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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