quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Pra Não Dizer Que Não Falei das Dores...

...Ou Uma Visão Schopenhauriana da Atualidade 




Schopenhauer disse que a vida é uma pêndulo que transita entre o sofrimento e o tédio, e o intervalo entre esses dois pontos é o que chamamos de felicidade. Eu nunca concordei com a visão pessimista do filósofo, entretanto, ultimamente eu ando um pouco confuso quanto às minhas crenças e parei para refletir sobre esse pensamento, chegando a conclusão que ele faz sentido. 

Se pararmos para pensar, a vida se resume em trabalhar para pagar contas e, quando não estamos trabalhando, estamos fugindo do tédio. Filmes, séries, festas ou qualquer outra forma de entretenimento são basicamente fuga do tédio. Tudo bem não querer ficar no tédio de vez em quando, mas essa geração, mais do que qualquer outra, não suporta um segundo de tédio. 

Blaise Pascal disse há séculos que o futuro seria marcado por juventude, barulho e entretenimento. E é só olhar para nossa sociedade para perceber que ele acertou em cheio. Isso se deve exatamente a essa nossa incessante fuga do tédio. Vamos às festas para fugir da chatice da vida, contudo, qualquer um que já tenha ficado sóbrio numa festa sabe que não há nada mais chato, então se usa todo tipo de droga para conseguir se divertir. 

Uma geração de pessoas que não foram ensinadas a enfrentar as suas dúvidas, seus medos, suas feridas, por isso elas fogem deles a todo custo e acabam escondendo isso em algum lugar bem fundo do seu ser, surgindo assim os traumas, os medos irracionais. Elas não gostam do silêncio, pois o silêncio é barulhento demais, então aumentam o batidão no máximo para que não consigam ouvir as vozes dos seus conflitos internos. Pessoas que não enfrentam as suas inseguranças para aprender a se gostar do jeito que são, aí fazem de tudo para aumentarem a autoestima. Nariz grande? Faz plástica. Cabelo crespo? Alisa. Magro? Academia e anabolizante. Tímido? Álcool para se soltar. Rugas? Rejuvenescedor. Indivíduos que resolvem os problemas artificialmente, que tratam os sintomas e não a causa e, por não tratarem a causa, estão sempre insatisfeitos com alguma coisa em si. 

Os relacionamentos, que eram para deixar a vida mais simples, mais leve, a minha geração fez questão de complicar, com joguinhos, com medo de dizer o que sente, com a imbecil mentalidade de “vou pisar para correr atrás”. Jovens que não querem se apegar, mas também não querem ficar sozinhos, pois encarar a solidão é encarar a si mesmo. Assim as pessoas ficam no Tinder e no WhatsApp, a todo momento procurando uma companhia de um dia, alguém que elas possam não se apegar, mas que preencham o vazio que elas sentem. 

Colocaram toda a culpa dos seus traumas, causados pelos que não sabem amar, no amor. “O amor não existe”, dizem. Não percebem que o que não existe, ou está bem difícil de encontrar, são pessoas que saibam amar. Culpam o pincel pela pintura ruim, e não o pintor inexperiente que a pintou. O que Nietzsche disse sobre Deus, sou obrigado a dizer também sobre o amor: 
“O Amor está morto! E quem o matou fomos nós.”
Somos uma geração ansiosa. A geração mais depressiva que já existiu, que consome toneladas de antidepressivos todo os anos, que toma café ou energético para acordar e calmante para dormir. Uma geração em que cada um encontrou uma forma rápida e fácil de preencher o seu vazio e se anestesiar com a vida. Uns bebem, alguns usam calmante, outros usam substâncias psicotrópicas menos ortodoxas, outros comem compulsivamente, outros compram; há os que são workaholics e os que entram em relacionamentos abusivos e destrutivos. A realidade é tediosa. A lucidez é letárgica. Deve ser por isso que precisamos tanto da insanidade para não enlouquecer de vez. Como disse Hamlet, quando as pessoas vão parar de não ser e serem de fato? Dito isso, encerro da mesma forma que Shakespeare encerra a peça em questão:
“O resto é silêncio.”
Leandro Faria  
Caíque Nogueira, ator e publicitário. Gosta de experimentar tudo que a vida tem a oferecer. Conhecer novos lugares, novos sabores e novas pessoas, de todos os tipos e lugares. É escritor por persistência, poeta por senciência e romântico de nascença! Caíque é o criador e escritor do blog Inexorável.
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