quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Sobre Urnas e Identidade





Essa está sendo a minha primeira eleição para prefeito do Rio de Janeiro, já com o título de eleitor devidamente transferido para a capital (antes, mesmo morando no Rio eu seguia votando em Niterói, minha cidade natal). E talvez essas tenham sido as eleições mais diferentes (para usar um termo mais brando) que eu me recorde. Os dois candidatos que foram para o segundo turno por aqui representam completos opostos em diversos campos, com visões inteiramente antagônicas de se fazer políticas, e que colecionaram ao longo de anos altas taxas de rejeição. Trazem consigo, contudo, o discurso de ruptura com as gestões anteriores.

A sensação que eu tenho, na verdade, é que esse foi o tom de boa parte dos eleitos ou pelo menos dos alçados ao segundo turno: o famoso “contra tudo que aí está” que tomou as manifestações das ruas desde 2013 e cessaram no impeachment em 2016. E o Brasil, na verdade, ainda não se encontrou desde que defenestrou o partido que mais tempo ficou no poder desde a redemocratização.

Parece que o país não entendeu o que quer de fato, apenas apontou o que não quer, demonizando uma corrente política, independentemente de suas propostas. Vivemos tempos muito mais de negação que de afirmação: negamos aqueles que colocamos no poder, mas não sabemos exatamente o que queremos. Isso é o que faz crescer vertiginosamente o número de votantes em nulo ou branco e mesmo de abstenções, para um país que lutou tanto para ter o direito à democracia e ao sufrágio universal e que o conseguiu somente há menos de 30 anos.

Essa falta de identidade é a mesma que faz a maior cidade do país eleger um empresário dito de elite no primeiro turno e a segunda maior cidade estar entre um bispo evangélico que tenta cargos no executivo há 10 anos e um esquerdista considerado extremista que busca a prefeitura pela segunda vez. A mesma que faz na Bahia a sua capital eleger o único representante legítimo do Carlismo, mas o Estado votar em peso nos candidatos petistas. A mesma que coloca dois candidatos ligados a um time de futebol a duelar pela prefeitura de Belo Horizonte.

Talvez, na verdade, o Brasil ainda não tenha se encontrado desde a redemocratização. Em menos de três décadas, tivemos apenas quatro presidentes eleitos e dois deles sofreram impeachment. No momento é cult ouvir o presidente que nos governou de 1995 até 2002, mas que até pouco tempo atrás era tido como uma voz quase aposentada ao grande público. E é moda querer crucificar o que nos governou de 2003 até 2010, que chegou a ser chamado por Barack Obama como “O cara” e que, mesmo com todo o ódio destilado contra a sua pessoa e seu partido, resiste à frente das pesquisas eleitorais para a Presidência em 2018.

Falando em Obama, já citei essa passagem aqui antes, quando o então senador americano derrotou John McCain e se tornou o primeiro presidente negro dos EUA: o candidato derrotado declarou que Obama até o dia anterior era seu adversário, mas agora era seu presidente da república. E desejava a ele sorte na empreitada. Um exemplo de civilidade.

Espero que ganhemos esse mesmo espírito republicano. Infelizmente, vemos ainda tempos de muita intolerância e incoerência no campo da política. Tenho meu candidato escolhido desde o primeiro turno e votarei nele com toda a fé que deposito de ele pode ser o melhor para a minha cidade. Mas pode ser que ele não ganhe, como certamente milhões não terão seus candidatos eleitos. Que aprendamos a ser mais democratas em sua essência: aceitar, na vitória ou na derrota, o candidato que a maioria escolheu. E que saibamos encontrar a nossa identidade e sabermos, de fato, o que queremos para o nosso país.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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