domingo, 6 de novembro de 2016

As Mulheres de 'Pai Herói'





Tenho assistido Pai Herói com grande admiração. Em reprise no Canal Viva, a novela de Janete Clair tem muitas qualidades que podem solucionar a questão da crise criativa que assola a nossa dramaturgia diária. No melhor estilo “siga o mestre”, não custa nada dar uma olhadinha no que Clair fazia nos idos de 1979 e, estranhamente, atualizar-se mirando o passado. 

Bom, alfinetadas à parte, é possível pontuar e discorrer sobre muitos aspectos da trama, mas vou me deter às personagens femininas (as mais ricas e bem construídas da novela). 

Apesar de estarem envolvidas em entrechos amorosos e convenções sociais, são mulheres na maioria das vezes assertivas e independentes, capazes de promover debates e abrir caminhos ainda hoje. 

Temos Ana Preta, vivida por Glória Menezes, uma mulher forte e empreendedora, circulando em espaços majoritariamente masculinos, nos quais, evidentemente, sua presença é questionada e sua lisura posta em cheque. No entanto, ela passa por cima do machismo de homens e mulheres e não se deixa abater. 

Carina, personagem de Elizabeth Savala, debate-se entre a vida de mulher casada (e suas restrições) e a carreira como bailarina. Atualmente o lugar-comum da “mulher empoderada”, enxota qualquer possibilidade de acerto de contas com a vida doméstica, de modo que, para ser uma mulher moderna, Carina tivesse obrigatoriamente que optar pelo trabalho. No entanto, a ficcionista Janete Clair é mais realista que a militância: coloca Carina nesse impasse e discute o destino da personagem sem discursos moralistas ou libertários, apenas fazendo a personagem jogar o jogo da vida. 

A novela também traz uma matriarca poderosa, Januária Brandão, interpretada por Lélia Abramo. Da época das grandes oligarquias, ela é naturalmente antiquada, conservadora e vigilante dos costumes da família que, volta e meia, mostram-se mais progressistas do que sua estrutura rígida consegue suportar. É o caso de sua nora que ganha mais do que o marido e mantém a casa sem guerra dos sexos – o que deixa a velha assoberbada com a “fraqueza” do filho diante da situação. Januária serve, em diversas situações, como contraponto entre o antigo e o novo. Não por acaso, seus conflitos são com as outras mulheres da família, sinalizando uma nova perspectiva para o feminino que se avizinhava à época. 

Ainda encontramos na novela uma mulher que abandonou o filho pequeno e roubou sua herança, uma tia que inveja a sobrinha, uma senhora que depois de viúva apaixona-se pelo cunhado... Enfim, laços de família incendiados pela combustão dessas mulheres. 

Contrariando os clichês, são personagens românticas, mas não necessariamente frágeis, e os traços de vilania não redundam numa megera. Nesse sentido, Janete Clair construiu as mulheres de Pai Herói de maneira redonda e complexa, sem dicotomias ou polarizações (à exceção de Januária, que tem uma função dramática clara e realista, porque bem contextualizada em seu tempo e espaço). 

É possível perceber, sem alarde, que a autora já naturalizava o lugar de fala das mulheres, o sucesso profissional delas e os impasses enfrentados ainda hoje. Curioso observar uma obra esteticamente datada, mas social e culturalmente atual. Fica evidente que pouco evoluímos em matéria de costumes. Sim, é isso mesmo: Janete Clair é uma de nossas autoras mais modernas e estamos, todos, ainda em 1979. Pode conferir.

Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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