domingo, 20 de novembro de 2016

Com a Licença de um Conselho





Tenho um projeto de romance. E um de roteiro para curta-metragem. Além daquele outro projeto de romance e daquele adiado projeto de contos. É verdade que eu tinha um grande projeto de viagem, de casamento, de estudar inglês também. Projeto para mudar de carreira, projeto para enfim ter uma carreira, projeto para ter um projeto.

Aumentar a biblioteca, adotar mais um gato, ganhar dinheiro, ter uma barriga tanquinho: nada melhor do que um bom projeto para não fazer nada disso. No entanto, desistir dos meus projetos não me faz mal, não sinto o elogio da derrota. O fato é que nascemos na geração faça-e-aconteça, na qual a ditadura do alto astral não alivia nossa necessidade de deprê, de reconciliação com a vida que só faz nos cobrar. Também não falo em estagnação, água parada: estamos aí fazendo o que se pode, como dá. Nada daquele discurso de coaching (autoajuda para burro de carga) nem de mito Miguel Falabella (é fácil fazer milhares de coisas quando há recursos para tanto).

Me sinto um pouco cansado da forçação de barra que é altamente externa a nós, exibindo exemplos de sucesso (o que é sucesso?) e sentenciando modelos de fracasso. Chega de pressão! Da fogueira das vaidades saio apenas chamuscado, graças a Deus. E os meus, os seus, os nossos projetos engavetados, adiados, esquecidos ou abandonados não competem a ninguém julgar o que serão deles porque somente nós sabemos o peso ou o alívio de realizá-los ou não.

Fala-se muito sobre padrões estéticos e de gênero, por exemplo, e o quanto eles são prejudiciais à saúde social e psicológica de toda uma sociedade. Normatividades em relação à uma ideia de indivíduo bem-sucedido também causam transtornos. É importante identificar essas armadilhas e correr e questionar e não aceitar.

Quando você puder fazer aquilo que deseja, independente das variáveis que te impedem, você irá lá e fará. É simples assim. Nenhum sermão vai alinhar suas passadas e te encaminhar para o caminho do ouro. Cada um sabe de si. É simples assim, repito. Não complique ainda mais a sua vida ou a vida dos outros com cobranças inconciliáveis e desajeitadas. Conheça a si mesmo e tenha empatia: essa é a lição de casa, a moral da história.

Programe seu regime pra segunda e adie se quiser, faça promessas de fim de ano e não cumpra nenhuma se assim for. Viva a sua vida como puder. Afinal, não está fácil pra ninguém, amores.

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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