sábado, 5 de novembro de 2016

Conselhos a Uma Adolescente






Há algum tempo atrás eu pensava em ter filho um dia. Primeiro, porque eu adoro criança, desde bebês fofinhos até a primeira infância, que vai lá pelos 10 anos, e desde que bem educados, é claro. Do contrário, não suporto. Segundo, porque sempre achei que saberia educar de maneira irrepreensível outro ser humano para o mundo, e adoraria conhecer alguém educado por mim. Imagino que deva dar um orgulho danado saber que você lapidou para o mundo um cidadão de bem, responsável, consciente, pleno e feliz.

Mas o tempo passou e, com ele, minha vontade também. Para criar e orientar outra pessoa pra vida, primeiro é preciso estar realizado e pleno de si mesmo, e o filho deve ser o complemento de uma felicidade que ainda se almeja ter. É necessário que seja uma experiência imprescindível na sua vida. Se não for assim, não tenha filho. Essa é uma dica pessoal para gays que pensam nisso, já que justamente por sermos gays não há a mesma cobrança e patrulha que acontece com os héteros quando se trata de ter filhos, mas a dica amiga fica para todos.

Essa introdução é pra falar sobre meu sentimento em relação a maternidade/paternidade precoce e a angústia de não poder fazer nada em relação a uma educação má conduzida, especialmente quando a situação está bem perto de você.

Vou começar bem do início. Tenho uma prima dois anos mais nova que eu, que acabou virando a irmã que nunca tive. Quando ela tinha três anos, perdeu a mãe, vítima de um câncer de mama, aos 37 anos. Ficou órfã junto com o irmão de seis, meu outro primo. Das poucas lembranças que tenho dessa tia, irmã da minha mãe, ela era uma criatura fantástica, o que se reafirma a cada conversa com pessoas que a conheceram intimamente, incluindo minha mãe. A única lembrança que tenho dela e que não me deixa duvidar de ninguém que fale maravilhas a seu respeito, é de um episódio que ocorreu quando eu tinha cinco anos. Eu tinha acabado de ganhar uma Barbie falsificada após implorar com todas as minhas forças, e não largava a boneca por nada. Num almoço de família, aquela família numerosa por parte de minha mãe nordestina, dominada pelo machismo, levei a bendita boneca - meu pai, contrariadíssimo, mas minha mãe muito segura de que seu pequeno filhote não era gay, mas apenas uma criança sensível e delicada. Ao chegarmos na casa da vó, aquela família imensa reunida, eu com a boneca, começaram os comentários desnecessários, no que minha tia querida, com seu jeitão despachado, soltou: deixa o menino brincar com o que ele quiser, parem de encher o saco!

Meus olhos brilharam de felicidade e alívio naquele momento, e eu amei minha tia pra sempre, embora nunca mais tenha voltado a vê-la. Aquele foi nosso último encontro. Lembro que logo depois larguei a boneca em algum canto e fui brincar com meus primos, filhos dela, os únicos que regulavam em idade comigo. Filhos, que infelizmente, ela não pôde criar, e isso causou um estrago imenso na vida dos dois. O pai não teve estrutura para criá-los sozinho, logo arranjou outra mulher que os detestava, fazendo-os passar mais tempo nas ruas do que dentro de casa, se envolvendo com pessoas de quem eles deveriam ser protegidos. Aos 14 anos, perseguido por bandidos, o menino passou uns meses refugiado na casa de meus pais, mas logo voltou ao seu habitat natural. Um tempo depois, com medo que a filha se envolvesse com as mesmas pessoas que o filho, o viúvo da minha tia pediu que minha mãe cuidasse da minha prima. Ela tinha 11 anos e nos demos bem de imediato. Foi nessa convivência intensa de apenas dois anos que ela e eu nos tornamos irmãos. Era uma dinâmica diferente de tudo que havia vivido como filho único até então, e foi muito marcante. Criamos uma ligação que nunca mais foi rompida, mesmo à distância.

Trocávamos confidências íntimas, que sempre me chocavam devido a minha educação religiosa rígida e certinha. Foi assim quando ela me contou que perdeu a virgindade aos 15 e que fez um aborto aos 16, entre outras coisas. Mesmo chocado em Cristo, sempre mantivemos nossos assuntos apenas entre nós. Aos 17, ela "casou" e logo em seguida engravidou. Minha irmãzinha teria um filho, fiquei emocionado. Desde os 11 anos acompanhei a trajetória dela como um irmão mais velho, preocupado, desejando que encontrasse um caminho na vida, pois ela era uma adolescente largada no mundo. A casa da minha mãe tinha regras rígidas demais pra ela, que já tinha se acostumado a ser solta. O pai tinha uma filha recém nascida com a atual mulher, e não se preocupava mais em dar limites nem assistência a ela. Só lhe restava a sorte de depender da bondade de estranhos, até que encontrou um marido.

Ela teve seu primeiro rebento, uma menina. Fiquei louco pra conhecer minha "sobrinha", demorei seis meses para vê-la, morávamos em estados diferentes. Quando a vi pela primeira vez, um bebê rechonchudo, saudável, brincando sozinha no sofá, enquanto a mãe preparava o almoço, chorei discretamente, e senti um amor imediato por aquela criança. Aquela menininha que era a cara da mãe, que era minha irmãzinha, com quem eu vivi histórias incríveis, estava ali na minha frente, nos meus braços, e era surreal. Minha prima estava com 18 anos, era uma boa dona de casa, e tudo parecia estar bem.

Mas depois de seu lindo primeiro bebê, minha prima virou uma máquina de fazer filhos e teve mais três, todos meninos. Em meio a essa filharada, um marido bipolar e violento, e necessidades financeiras, ela conseguiu fazer ligadura de trompas aos 26 anos. Separou-se do marido depois de 13 anos juntos, e aos 30 anos voltou a ser solta na vida.

Eu estive com sua filha poucas vezes, mas pude perceber através de postagens nas redes sociais, que a menina parecia seguir os mesmos passos da mãe. Inúmeras vezes supliquei a minha prima que não criasse a menina solta demais, que não repetisse com ela os mesmos erros que seu pai havia cometido, mas cada um só dá o que tem, e aos 14 anos a guria saiu de casa e foi morar com um homem de 25, separado, com dois filhos. Como nada mais me choca nessa vida (eu acho), apenas lamentei intimamente, e agradeci por nunca ter me envolvido emocionalmente com a filha da mesma forma que me envolvi com a mãe. E procurei não ter mais nenhum tipo de contato com a menina, desde que soube de seu envolvimento com o tal sujeito. Mas essa semana tivemos um encontro, na despedida de minha prima, que foi embora pro Nordeste com o caçula de sete anos, deixando os outros dois com o pai, e a mais velha sozinha, aos 15 anos.

A menina não está mais com o tal cara, com quem morou junto durante nove meses, chegando ao ponto de tatuar o nome dele no peito (perdoai Senhor, essas crianças não sabem o que fazem!). Poderia ir com a mãe embora, mas não quer. Depois da despedida, acompanhei minha sobrinha postiça até em casa, mas durante o trajeto me senti desconfortável. A vida daquela menina de 15 anos, que agia e falava como adulta, estava toda errada, fora da cronologia correta de uma adolescente normal. Eu a conheci um bebê com seis meses de vida, e imaginei que a vida dela seria muito diferente, mas ali diante de mim estava uma repetição da vida medíocre e miserável que a mãe teve. E eu me senti tão impotente. Foi inevitável imaginar como eu teria criado aquela menina. Foi o ímpeto que eu tive ao segurá-la no colo pela primeira vez, levar pra minha casa, pra minha vida, transformá-la em tudo o que sua mãe não foi.  

E aí, mesmo sem assunto, tentei quebrar o gelo e perguntar por que ela tinha terminado com o sujeito. Então ela desandou a falar, e tudo o que eu queria era dizer as palavras certas, dar a ela um conselho inesquecível, algo que ela levasse pra vida e lembrasse pra sempre. Tentei ser o mais natural possível, não tenho muito traquejo com adolescentes, mas disse: 
Você é só uma garota de 15 anos, tem uma vida imensa pela frente. Esse cara é um homem feito que quer te usar, manipular, sugar os melhores anos da tua vida. Depois ele vai continuar gostosão e você um bagaço. Viva tua adolescência, namore caras da tua idade, curta a tua vida intensamente. Você tem tudo, vai ficar presa à um homem, aos 15 anos de idade, pra quê? Estude, procure um trabalho, se você quer ser independente. Escolha uma coisa que você goste muito de fazer e não fique pensando só em homem não. Saia com as tuas amigas, vá pra balada, desça até o chão, beije muito na boca, fique com todo mundo que tiver vontade, mas pelo amor de Deus, não engravide. Se tiver se relacionando com alguém, tome anticoncepcional e se for só uma transa, camisinha sempre. Pense em você, na tua vida. Não é hora de ter filho agora, não faça como sua mãe. Você vai deixar de viver um monte de coisa legal se tiver filho agora e não vai ser uma mãe completa. Vai viver uma adolescência pela metade, e ressentida por isso não vai ser uma mãe como deveria. Não fique tão ligada em homem não, e se cuide sempre, você é muito menina. E nunca se esqueça: o maior amor que você precisa ter na vida é o amor próprio, o amor por si mesma. Se ame muito primeiro, depois pense em amar outra pessoa (posso ouvir um amém? rs).
Depois desse conselho de tiozão e de me despedir com um abraço, pensei que não poderia dizer nada de muito diferente, embora minha vontade fosse fazer outro discurso, mas de nada adiantaria, entraria por um ouvido e sairia por outro. Da forma como falei, sem moralismos, espero que alguma coisa fique, que pelo menos uma sementinha do que eu disse brote naquela cabeça juvenil. Ela ainda tem tempo, ainda pode ter uma vida diferente da mãe. Assim como a mãe poderia ter tido uma vida diferente se minha tia estivesse viva. 

Sempre me angustio quando penso nisso. Minha tia jamais teria abandonado os filhos à própria sorte. E como minha prima não teve mãe, também não soube ser mãe. Não a culpo, foi, do jeito torto que conseguiu.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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