segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Coxas





Na primeira vez que se viram, Rogério apenas reparou em suas coxas. Ele estava sentado no banco do ponto de ônibus quando aquele homem de belas coxas sob a bermuda curta parou em sua frente. Não conseguiu mais prestar atenção no livro que lia. Via apenas aquele belo par de coxas grossas, com pêlos lisos e negros. O ônibus chegou e ambos entraram. Rogério sentou-se no meio do ônibus e o dono das coxas se dirigiu para o fundo. 

Dois dias depois, novo encontro com o dono das coxas. Dessa vez ele estava acompanhado de um outro amigo, também de bermuda e regata. Em pé no ponto de ônibus, Rogério apurou o ouvido e descaradamente prestou atenção na conversa dos dois. O amigo do dono das coxas falava feito uma matraca e, através das palavras dele, descobriu que malhavam numa academia próxima àquele ponto de ônibus e quase gozou ao perceber que agora o dono das coxas tinha um nome: Márcio. 

Com o passar do dias, tornou-se rotina: segundas, quartas e sextas eram os dias em que Márcio malhava e pegava o ônibus no mesmo horário que Rogério. Era o dia de Rogério ficar hipnotizado por aquele maravilhoso par de coxas grossas, de quase não conseguir esconder a ereção que brotava no momento em que avistava aquela obra de arte da natureza. Já estava virando obsessão: Rogério desejava Márcio. Ou melhor, as coxas de Márcio. 

Num dia chuvoso, Márcio se atrasou e Rogério achou que seria privado do seu prazer visual. O ônibus chegou, Rogério entrou, sentou-se num banco vago no meio do coletivo e, distraído, pegou seu livro e começou a ler. Foi quando aquele homem entrou e, num ônibus com outros lugares vagos, foi sentar-se justo no lado dele. Rogério já xingava o tal homem mentalmente quando reparou nas coxas molhadas pelos pingos de chuva e levantou o olhar: Márcio, seu objeto de desejo, estava sentado ao seu lado. 

Não conseguia disfarçar, não conseguia tirar os olhos de cima daquele par de coxas. Fingia ler o livro para manter o olhar para baixo. Foi quando foi tirado de seu torpor. 
- Dia horrível, né, mano? Mó paia essa chuva, fiel! 
Rogério murmurou uma resposta qualquer e voltou para sua leitura. E perdeu o interesse imediatamente em Márcio. Se deu conta de que o preferia calado, já que ele tinha um jeito pavoroso de falar. Perdeu o tesão e até as coxas deixaram de ser interessantes. Rogério era assim. 

No dia seguinte, e em todos os outros, passou a pegar o ônibus mais cedo.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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