sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Deu Merda





Esta semana peguei o metrô em direção ao Centro da cidade.  Entre a estação Botafogo e Flamengo, tive a impressão de que algo estava errado.  O túnel parecia extenso demais.  Passava por ali todos os dias, mas nunca tinha notado que o percurso era tão longo naquela escuridão.  Aquela demora ligou a ignição de minha claustrofobia.  Em segundos, eu já estava sufocado, procurando uma fresta na porta para tentar encontrar o ar que psicologicamente me faltava para respirar.

Por uma fração de segundos, veio um flash em minha memória... Lembranças que sufocavam-me no passado.  E, por incrível que pareça, não estavam relacionadas ao medo do escuro, ambientes fechados ou uma multidão me imprensando.  Essa sensação de sufocamento era provocada por sons e imagens.  Tinha pavor daquela vinheta da Voz do Brasil, com a entrada de “O Guarani”, de Carlos Gomes.  E também tinha horror do Jornal Nacional quando apareciam as imagens de Margareth Thatcher, Ernesto Geisel, Xá Reza Pahlevi, Aiatolá Khomeini e, mais tarde, o Ronald Reagan, o Bush pai e o Osama Bin Laden.  Aquelas pessoas sempre me causavam aflição.

O medo de uma possível guerra sempre me causou um incômodo.  Como meu pai era militar, a guerra era a certeza de uma desestrutura familiar.  Tudo o que envolvia a política extremista ou então o fanatismo religioso era motivo de me tirar o sono.  Algumas noites passei em claro com medo de um ataque nuclear.  Lembro que fiquei dias sem dormir depois que assisti ao filme The Day After – O Dia Seguinte, em 1983, sobre a crise entre a União Soviética e os EUA, que desencadeia uma hecatombe nuclear em Kansas City.  O longa era tão real que eu fiquei em pânico.  Era o Reagan aparecer na TV para eu achar que estava encarando o anticristo.

Essa semana, logo depois de ainda estar me recuperando do choque do resultado das eleições municipais, outra bomba:  contrariando todas as pesquisas, a democrata Hillary Clinton perdeu as eleições presidenciais americanas para o democrata-magnata Donald Trump... Sim, aquele retrógrado-machista-bonachão-cabelo-cor-de-abóbora-e-rosto-bronzeado-artificialmente com ideias racistas, homofóbicas e misóginas... Sim, aquele que quis construir um muro separando os EUA do México, expulsar imigrantes e detonar os latinos.  O mais assustador é que aqui, bem perto de nós, também temos candidatos semelhantes... Mesmo que só existam duas frentes lá nos Estados Unidos, o pesadelo está mais perto do que imaginamos.



Eu ainda espero acreditar que a esquerda esteja com uma dificuldade mundial de interagir com as populações de uma forma mais adequada.  Não tenho a fórmula, mas acho que a análise de discurso está equivocada.  Infelizmente, as pessoas estão confundindo democratas com comunistas, comunistas com fascistas e por aí vai.

Hillary também nunca foi flor que se cheirasse bem.  Putin gostou do resultado (mas o presidente russo também não é nem um tiquinho confiável).  Parlamentares soviéticos já diziam que se Trump não ganhasse, a guerra nuclear (ela novamente) já seria uma certeza.  E novamente as declarações já deixaram meus (poucos) cabelos em pé.  Temos medo de mudanças.  Temos medo do botão vermelho.  Temos medo do the day after.  Temos medo do retrocesso.

Só nos resta aguardar.  A estação entre São Francisco Xavier e a Sans Peña costumava ser mais curta.  O túnel é longo, escuro e amedrontador.  O ar está rarefeito.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcia Marino disse...

Perfeita a sua colocação!!! Só nos resta aguardar... Também percebi a distância entre Botafogo e Flamengo... Fiquei bem assustada... #tamojuntos

Unknown disse...

Nossa cara q sensível vc é, como consegue viver nesse mundo onde existem pessoas com opiniões q são diferentes das suas e por ser assim vc classifica eles de machista, racista, taxista, malabarista, otorrinolaringologista e istas de quem paga de desconstruidão? Vc n é especial e ainda bem q o mundo n gira em torno de sua ideologia de DCE. Deve ser realmente difícil lidar com a realidade vivendo numa bolha típica de SJW.