terça-feira, 29 de novembro de 2016

Devaneios da Madrugada





Não é bem madrugada... São 23:51h, mas já já a madrugada chega. Hoje eu estou de roupa, o que é algo inédito, já que em Florianópolis tem feito bastante calor, o que me obriga a ficar só de cueca em casa. Mas essa noite está fresca. Não fresca do tipo "Ai, noite, você é muito fresca", mas com aquela temperatura nem fria, nem quente, sabem? Pois é, essa mesma. 

Rafael dormiu, estava morto de tanto trabalhar. Eu já gosto da noite, então cá estou, sozinho na sala, com uma garrafa de café só pra mim, no escuro, sentindo a brisa entrar. Não aquela brisa do 4:20, mas a brisa que vem de fora. Droga, o que vou fazer pra levar de almoço pro trabalho amanhã? Estrogonofe de carne moída? É uma boa. Ih, esqueci de comprar cebola... Parei pra encher a caneca com mais café. 

Começo a pensar que esse texto tá uma bosta. E tá mesmo. Mas eu tinha que vir, e não podia fazer outro texto sobre não ter nada pra escrever. Tá, tudo bem, vou tentar contar uma história pra quem estiver aí do outro lado, lendo. Espero que não tenham desistido. Provavelmente desistiram, esse texto não tá lá essas coisas. Ando sem criatividade pra criar algo do nada. Tá, tá bom, não no sentido "E no primeiro dia, Deus disse 'Haja luz, e houve luz'", mas vocês também entenderam. 

Ok, vamos lá, o que vocês querem ler? Sobre o que vocês mais gostariam de ler nessa terça-feira? Essa Black Friday me sugou um bocado. Ah, a propósito, tô fazendo esse texto na sexta-feira, dia 25. Faltam dois minutos pra meia-noite. Isso me fez lembrar do revéilon. Espera, como se escreve? É réveillon? Isso, esse é o certo. Me fez lembrar do réveillon. Passei muitos na igreja, de joelhos, pedindo a Deus forças e orientação pro ano seguinte. Num deles, Vinicius e eu passamos brigando, enquanto a congregação estava em silêncio (mais ou menos, porque a maioria estava chorando, quebrantada). Por que brigávamos mesmo? Ah é, porque o fio da fonte estava com mal contato, e eu não podia me ajoelhar, ou o teclado ia desligar e talvez demorasse pra ligar, e aí não íamos conseguir tocar o hino final, o primeiro hino do ano novo. Só que eu queria ajoelhar, e Vinicius insistiu pra que eu não ajoelhasse. Foi por isso que começamos a brigar. Quando a vigília acabou, nos abraçamos e tudo ficou bem. A cena do abraço foi engraçada, porque ambos ficamos bem sem graça por conta da cena dramática que fizemos. Às vezes eu sinto falta de lá, sabem? É, eu sei, é algo absurdo de dizer, já que fiz um texto dizendo exatamente tudo o que passei lá, tudo o que sofri lá, mas os domingos passados dentro da igreja, ensaiando, eram legais. As grandes evangelizações, as viagens que a gente fazia, quando não dava tempo de tomar banho e a gente tinha que ir pra rua apenas com um banho de gato, pra não matar quem estava do lado. Essa dinâmica era boa, meus finais de semana eram bem agitados, às vezes a semana inteira. Pra falar a verdade, eu sinto falta dos hinos, e dos tempos em que eu era inocente e curtia a coisa toda.

Meia-noite e quatro. Realmente, eu faço um café muito bom, brigado, pai, que me ensinou a fazer café. Meu pai me ensinou poucas coisas na vida (andar de bicicleta não foi uma delas, minha irmã e minha mãe se encarregaram disso, mas não deu certo, ou seja, vocês descobriram meu segredinho). Me ensinou a fazer café, a... bem, teve também aquela vez que... Ah, meu pai me ensinou a fritar ovo! A colher as ervas que ele e minha mãe cultivavam no quintal, porque uma vez fui pegar salsinha e tirei tudo, até a raiz, aí então ele me ensinou a colher salsinha, cebolinha, e outras coisas. 

Por falar no meu pai, agora ele comprou um celular novo, só pra poder usar WhatsApp pra falar comigo, eu posso com isso? Que belezinha. Ontem ele me mandou "Boa tarde, meu filho", e "Oi, filho, tudo bem?". Depois de anos de teimosia, aos setenta e oito anos de idade, ele se rendeu à tecnologia. Tadinho, me dói no coração deixar ele lá, mas ah, ele tá bem acompanhado, sabem? Tem a vizinha de cima, que sempre dá bolo, doce e outras coisas pra gente (ela e minha mãe eram muito amigas, viviam trocando receitas, comidas, etc), também tem uma amiga de muito tempo, que tem um restaurante na esquina da nossa casa e que ajudou muito a minha mãe durante toda a fase daquela doença maldita. Também tem minha irmã, minhas sobrinhas e meu cunhado, que sempre estão ligando pra ele, e também me mandando notícias. As sobrinhas dele moram na cidade ao lado, então elas também estão cuidando dele. No final das contas, meu pai tá cozinhando, fazendo os artesanatos dele (ou marcenaria? Nunca sei), andando pra cima e pra baixo, como dizia minha mãe, viajou nesse final de semana, tá curtindo a aposentadoria, então tá melhor que eu (não que eu esteja mal, foi apenas força de expressão). 

Um dos motivos pelo qual eu sempre lutei pra sair de Barra Mansa foi pra deixar meus pais curtirem suas respectivas aposentadorias em paz, pra passear, gastar dinheiro com suas próprias coisas, e só me verem de vez em quando, sempre que eu fosse visitá-los, mas isso nunca foi possível. Sabe que eu acredito que teve um propósito nisso tudo? Porque meu pai quase morreu num acidente de ônibus, quando ia pra um seminário da igreja, em Vitória. E não morreu, apenas levou sete (ou dezessete, nunca lembro) pontos na cabeça. Minha mãe e eu quase morremos de tanto chorar, dentro de casa, é claro, porque ela sempre disse: "Ninguém precisa saber que a gente está chorando. Deixe pra chocar dentro de casa. Para os outros você vai sempre estar bem.", mas no final das contas, tudo ficou bem. E hoje eu começo a entender porque não consegui sair de Barra Mansa antes. Meu pai não ia conseguir lidar com tudo aquilo sozinho, não mesmo. Não tô desmerecendo meu pai, não me apedrejem, mas é que lidar com uma pessoa em fase terminal não é nada fácil, não sei se alguns de vocês já passaram por isso, eu espero que não. Aí agora, depois de toda aquela tempestade, tudo se ajeitou. Eu não queria que tivesse sido assim, claro. Queria poder visitar meus pais em determinadas datas, queria que eles fossem me visitar, onde quer que fosse, enfim, seríamos, então, uma família normal, dessas que o bom filho à casa retorna, mas só pra passar uns dias com os pais. Mas nós, os Damasceno de Aguiar, nunca fomos normais, e eu tô começando a achar isso uma coisa... interessante. Não sei ainda se é bom ou ruim, talvez um pouco dos dois.

Da rua agora deu pra ouvir duas fortes batidas de porta de carro. Por que as pessoas gostam de bater porta de carro com força, será que não têm geladeira em casa? Mas bem, voltando. Nós lá de casa nunca fomos normais, do tipo... ah, sei lá, do tipo Facebook, que postam fotos em família, que reúnem a família, que se curtem o tempo todo, que fazem passeios e tal. Bem, nós fazíamos muitos passeios, é verdade. Sempre íamos para o sítio de uma irmã da igreja, dormíamos lá, era ótimo. Eu adorava acordar lá pelas cinco, pra ver a cerração na frente da casa, os patos rebolando seus pequenos rabinhos na água do rio que passava em frente, os primeiros sons do dia, as pescarias, o dia que cortei minha perna num vergalhão... Claro que eu me cortaria num vergalhão, claro que nas pontas da ponte teriam vários vergalhões e eu passaria correndo, não veria e me cortaria, claro. E minha mãe: "Tadinho do meu filho, quase não sai de casa, e quando sai, se machuca...". Ok, isso foi constrangedor. 

As viagens em família eram sempre nas evangelizações, e sempre minha mãe e eu. Teve uma vez que fomos pra Angra, e eu fiquei todo empolgado porque veria o mar pela primeira vez. Aí então, dentro do ônibus, minha mãe grita lá da frente, toda empolgada: "OLHA LÁ, GLAUCO, O MAR!", e eu: "MÃÃÃAE!", e ela riu divertida. 

Meu pai deve ter ido algumas vezes, eu acho. Uma vez fomos ao parque juntos. Que legal, gente! Eu fiquei animadão, porque meu pai trabalhava pra caramba, e por várias vezes eu ouvi ele dizer que estava sem tempo pra fazer qualquer coisa comigo, e que só teria tempo quando aposentasse. Então eu, muito sem vergonha, passei a perguntar todas as vezes que ele chegava em casa: "Aposentou?", porque eu queria muito que ele brincasse comigo, que me contasse coisas, que me ensinasse coisas. Nesse dia do parque eu lembro de duas coisas muito divertidas (pra mim): o leão preguiçoso, que bocejava ao invés de rugir, sempre que o cara estalava o chicote no chão, e o brinquedo que girava, com as naves espaciais. O brinquedo não acelerava, aí o operador começou a empurrar, justo a nossa nave. Meu pai e eu ríamos tanto, ninguém ali entendeu o motivo, mas achamos aquilo tão divertido... Foi demais. 

Mas é isso, os Damasceno de Aguiar nunca foram de programas em família. Mas sempre assistimos televisão juntos. Ou fazíamos salgados juntos. Teve uma vez que minha mãe recebeu uma encomenda de quatro mil salgados. Viramos a noite enrolando, empanando, recheando, cortando, ralando, não exatamente nessa ordem. Foi divertido. Ontem, saindo do shopping, descendo a escada rolante, vi vários pais com seus filhos, bebês ou não, vendo o Papai Noel assoviar Jingle Bells, com vários cachorros fazendo au au, no ritmo. Tudo boneco eletrônico, CLARO, mas me lembrei de quando minha mãe me levou ao circo. Nossa, que divertido! Mas claro, eu não aproveitei tudo porque estávamos na igreja e eu comecei a me sentir mal por estar ali, e consequentemente não ganhei uma bola grande, já que não gritei pra chamar o Chaves, embora minha mãe me incentivasse a chamá-lo. Até hoje não sei se era o Chaves mesmo, ou se era um cover. Bem, vida que segue. Teve uma vez também que fomos no Trenzinho da Alegria. Aquilo foi DEMAIS! Ganhei uma caixa de estalinhos, o que acabou fazendo com que ela se arrependesse de ter me levado (brincadeira), e eu o tempo todo do lado dela, de mãos dadas, morrendo de medo de me perder e ficar sozinho. Teve também uma vez que fomos ao "shopping" de Volta Redonda participar de um concurso chamado A Cara da Mamãe, claro, para o Dia das Mães. Infelizmente não ganhamos porque, bem, eu só pareço com minha mãe na personalidade, porque por fora eu sou bem parecido com meu pai (eles dizem, eu não acho muito, mas ele fica todo todo quando alguém diz isso, um amor). Voltando, tadinha, eu saí de perto dela pra olhar o lugar onde estávamos, e de fato, não saí do andar, mas ela ficou tão preocupada... E me deu um baita esporro, com razão.

Será que tem alguém lendo ainda? Tá gigante esse texto, acho que um dos maiores que já fiz aqui pro Barba? Talvez. Preciso de um emprego extra, tenho que terminar de montar minha vida aqui em Floripa. Ainda não resolvi se vou fazer estrogonofe mesmo. Talvez eu use apenas uma caixa de creme de leite, ao invés de duas. Não sei porque essa obsessão com números pares, credo. Por que estão soltando fogos a essa hora? São meia-noite e cinquenta e um, o que tá rolando?

Bem, tá tarde mesmo, é melhor eu terminar esse texto aqui e arrumar minha marmita. Vou deixar umas balas, dessas butter toffes, sabem? Então! Rafael viu que eu gostei dessa bala e comprou algumas pra gente. Eu achei isso o máximo, sério. Não é preciso muito pra me agradar. Então, vou deixar umas três dessa dentro da sacola, junto com o almoço, porque é sempre bom um docinho, né? Então vou indo. Perdoem o texto gigante e não desistam de mim. 

Meia-noite e cinquenta e cinco. Câmbio, desligo.

P.S.: Meia-noite e cinquenta e nove: ainda não fui dormir, tinha que postar no Twitter que fiz um texto gigante. Agora sim.

Leia Também:
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
FacebookTwitter


Nenhum comentário: