sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Deveríamos Falar Sobre o Tempo? Ou Deveríamos Falar Sobre o Governo?





O título do texto de hoje é um trecho de uma das canções que mais gosto do REM, banda que surgiu em Athens, na Georgia, em 1980, e que vendeu milhões de discos, principalmente com bem-sucedido Out of Time, de 1991, que tinha o hit Losing My Religion, sucesso absoluto na MTV. 

O REM tinha (a banda, infelizmente, terminou em 2011) um dos vocalistas mais politizados do rock alternativo mundial. Michael Stipe já fez duras críticas à política norte-americana... Em uma das últimas, mandou o então pré-candidato do partido republicano, Donald Trump, se fuder por ter utilizado a canção It´s the end of the world as we know it (and I feel fine) quando o presidenciável subiu a um palco em Washington em um evento contra o acordo nuclear entre EUA e o Irã. 

O título da coluna vem da canção Pop Song 89, do álbum Green, de 1988, cujo clipe foi censurado por levar bailarinas com os seios à mostra e Stipe, no meio delas, fazendo a mesma coreografia.
“Should we talk about the weather? Should we talk about the government?”
Fiquei pensando nessa frase o tempo inteiro durante o último domingo, dia do segundo turno das eleições municipais em vários Estados. Aqui no Rio de Janeiro, o clima era tenso. De um lado, o socialismo visto com o olhar enviesado e, de outro, o republicano com disfarce neopentecostal. O resultado, todos já sabem.

Mas, o que mais me chamou atenção, foi a omissão da sociedade. Do total de eleitores – 4.898.044 – quase metade se absteve, votaram nulo ou em branco. Marcelo Crivella ganhou a eleição com 1.700.030 votos (59,3% dos votos válidos) e Marcelo Freixo ficou com 40,6% dos votos válidos. Ou seja, a soma de votos nulos, brancos e de abstenções, ficou em 2.034.352, superando o candidato vencedor.

Se compararmos com a eleição presidencial, 21% (cerca de 37,2 milhões de eleitores) se abstiveram. A presidenta Dilma se reelegeu com o voto democrático da maioria – 51,64% dos votos válidos (cerca de 54,5 milhões) contra 48,36% (51 milhões) de Aécio Neves. 

Podem me crucificar. Atirem mesmo a pedra, mas vou falar uma coisa: o que se viu aqui no Rio de Janeiro foi uma situação patética. Não considero essa eleição democrática. A maioria da população não escolheu nenhum dos dois candidatos, mas foi conivente. 

É muito fácil lá no ano que vem dizer aquele velho discurso quando as coisas dão errado: “ah, mas o meu voto ele não teve”. Sim, mas o que dizer dos que ficaram em cima do muro não escolhendo nem um nem outro? Só posso dizer que infelizmente, sim, foi omissão. Não estou dizendo que o bispo-candidato seja melhor ou pior do que professor-candidato, apesar de ter a convicção de que o Estado é laico e a religião não deve, de forma alguma, influenciar na política.

Imaginem alguém com uma faca cravada nas costas, sangrando no meio da rua. O Rio de Janeiro é esse indivíduo. Agonizando em plena praça pública.

Mas as pessoas preferem passar direto por ele. Fecham os olhos. Não tem tempo para sequer ler os programas de governo. Não analisam os candidatos.

Se preocupam muito mais em checar o Climatempo e checar se o próximo fim de semana vai dar praia.
“Should we talk about the weather?”
Cancelem o churrasco. A previsão não é das melhores. Os cariocas não gostam de dias nublados, mas nos próximos meses estaremos sujeitos a dias sombrios e tempestades, com forte ressaca. 

Michael Stipe vai soltar um foda-se muito mais abrangente do que o direcionado a Trump. Sim... Está tocando agora “é o fim do mundo como nós o conhecemos...", só que dessa vez, não me sinto nada bem.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcia Marino disse...

Amei!!! Sempre direto e verdadeiro ! #tmj

Selma Peres disse...

É isso! Infelizmente.