quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Fogo na Cama





Fazia tempo que Janete estava insatisfeita com o marido. Acostumara-se a ser mera coadjuvante em sua vida e a ver o esposo nas parcas horas que antecediam o sono na pouco agitada cama do casal.

Pegara pequenas escorregadelas do marido nos últimos anos: uma mensagem na rede social aqui, um recebimento de nude ali, um sorriso a mais para outro espécime feminino na rua... Nada que, a seus olhos, justificasse um divórcio. Contanto, conversava com as amigas, muitas delas experientes no assunto, como forma de desabafo.

Naquela noite, quando Heleno chegara e jogara a pasta do trabalho sobre o sofá (algo que, para registro, ela odiava que ele fizesse), cheirando a chope e cigarro, Janete se lembrou do conselho valoroso de uma de suas confidentes:
"O negócio não é procurar mais batom na cueca ou na gola. Vai direto na orelha. Toda vagabunda lambe a orelha de macho casado. Se tiver cheiro de baba, pimba!"
E assim o fez. No protocolar cumprimento do casal, Janete se aproximou da orelha direita do marido. Sentiu o cheiro de saliva. Junto com ele, vieram tantas coisas: a vontade do pranto, o berro de indignação, a mão que esbofeteava a cara, o pedido de divórcio. Mas ela apenas afastou seu corpo e o deixou ir tomar seu banho.

Esperou, horas mais tarde, Heleno adormecer. Foi até a área se serviço e pegou o álcool em gel. Jogou por toda a cama onde o marido repousava. Acendeu o fósforo, iluminando a magoada face. Num só gesto, ateou fogo no próprio leito, com o esposo em cima.

Dias depois, enquanto se recuperava das queimaduras, Heleno ainda tentava entender as motivações da mulher. Logo naquela noite em que havia tentado realizar um dos sonhos dela: fora até um criadouro para escolher um cachorrinho que pudesse alegrar a casa. E, em meio a tantas lambidas que ganhara em toda a cabeça com os filhotes que pegara no colo, ainda não tinha se decidido em definitivo pelo presente...

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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