sábado, 26 de novembro de 2016

Lembranças do Terceiro Travesseiro





Passando uns dias na casa de um amigo, encontrei em sua estante o primeiro livro de temática LGBT (me recuso a usar mais que essas quatro letras) que li na vida. Ele mesmo, meus caros, O Terceiro Travesseiro, primeiro "livro gay" da vida de 9 entre 10 gays brasileiros. O livro, do escritor Nelson Luiz de Carvalho, lançado em 1998, já teve várias edições com três capas diferentes, e nunca me despertou para uma segunda leitura, até essa semana, quando me deparei com ele em sua capa original, a mesma de quando comprei meu exemplar em 2001, e passei três dias trancado no quarto devorando-o ao som de Adriana Calcanhoto.

A viagem nostálgica que fiz, apenas admirando a capa por um longo tempo, foi tão profunda, que comecei a lê-lo sem sentir, e mesmo detestando algumas passagens da narrativa, tudo me pareceu tão emocionante e dolorido novamente. Há muita diferença em ler uma história aos 19 anos de idade e depois aos 35. Tudo muda, sua sensibilidade, a percepção de mundo; a verdade é que se é duas pessoas completamente diferentes aos 19 e aos 35 anos. Ainda assim, esse novo mergulho em O 3° Travesseiro bateu forte.

O que mais pegou foram as lembranças do final daquela adolescência conflituosa, cheia de sonhos românticos, desejos lancinantes e os "ses", que tanto me atormentam até hoje. E se eu ainda morasse naquela cidade... E se eu não tivesse saído de casa dois anos depois... E se meus pais não tivessem se separado... E se eu tivesse entrado na faculdade naquela época... E se meus pais acreditassem nos meus sonhos e me apoiassem incondicionalmente... E se eu tivesse aceitado aquele emprego que tanto queria, mas recusei porque preferi mudar de Estado... E se eu mesmo acreditasse nos meus sonhos com tanta força como acredito hoje... E se eu tivesse vivido um amor como o de Marcus e Renato, protagonistas do livro...

A vida ficará me devendo essas respostas, porque, infelizmente, não é possível voltar ao passado e testar todas as possibilidades apresentadas. Tudo poderia ter sido maravilhosamente diferente ou não, poderia ter sido pior. A única coisa que permanece igual é aquela emoção sentida ao virar a última página do livro. Durante a leitura, o álbum Perfil de Adriana Calcanhoto dava o clima que me envolvia de corpo e alma na história de Marcus e Renato, mas a música que sintetizou todo o romance pra mim, foi Naquela Estação. O trecho que diz:

E agora, tudo bem
Você partiu
Para ver outras paisagens
E o meu coração, embora
Finja fazer mil viagens,
Fica batendo parado
Naquela estação...

É perfeito, e me fez debulhar em lágrimas ao pensar na espera de Marcus, que nunca teria fim, e na minha própria espera pelos amores que nunca me corresponderam. Hoje minhas esperas são outras, mas ainda me sinto parado na mesma estação.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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