segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Malandramente...

...a Menina Se Empoderou e Botou os Marmanjões no Seu Devido Lugar!




Eu sou uma pessoa musical. Meus amigos mais próximos sabem disso, já que eu sempre tenho uma música para todas as ocasiões, fora aqueles momentos em que eu só queria parar tudo e botar um som pra tocar, como trilha sonora especial. E sou eclético. Ouço do clássico ao brega, não deixando de lado o que toca no momento ou aquilo que ninguém mais se lembra que tocou um dia. Música é vida e alimenta a nossa alma.

Dito isso, tenho um pouco de preguiça de quem tem preconceito musical. Quem julga o outro por aquilo que ele ouve (e sim, eu sei que existe muita merda por aí, mas gosto é que nem cu rosto, né, cada um tem o seu!), deveria arrumar um pouco de coisa pra fazer, porque, convenhamos, a sua vida deve ser bem da sem graça, não é mesmo? Afinal, a mocinha pode ser uma ótima profissional e adorar se acabar no funk; o cara pode ter uma moral ilibada e curtir uma sofrência daquelas dignas de dor de corno. Você não é o que você ouve; você é aquilo que projeta nos demais.

Dito isso nessa introdução necessária, preciso confessar que ganhei um novo earworm, que não sai da minha cabeça e que me deixa cantarolando a todo momento por aí. Trata-se de Malandramente,  um funk carioca de um tal de Dennis com a participação de Nandinho & Nego Bam (ok, ok, nunca ouvi falar deles, mas eu já conheço a música, ou seja, querer que eu saiba quem são esses cidadãos já é um pouco demais). E é exatamente a música a minha inspiração para o texto de hoje, porque, preciso perguntar, vocês repararam em quão empoderada é a menina da canção?

Oi, como assim? Você pode estar se perguntando. Mas é isso mesmo. Empoderamento feminino puro em uma letra de funk cantada por homens. E eu consigo te entender perfeitamente. Eu mesmo conhecia a música, cantarolava por aí o refrão (confessa: uma música com um atentado brutal ao português formal não é maravilhosa de ser cantada?), mas nunca tinha parado pra prestar atenção na letra, no que ela estava contando. E quando eu fiz isso, me peguei admirando a postura da menina malandra, que deixou os marmanjos em seu devido lugar: chupando o dedo, afinal, o corpo é dela, logo, as regras também.

Você sabe de que música estou falando, não é? Não? Como assim? Eu já disse aqui que sou legal e, por isso, vou te ajudar a relembrá-la. Mas ouça agora, prestando atenção na letra e em tudo que ela efetivamente significa. Vamos lá? Vamos. É só dar o play e seguir a canção:


Viram o que eu estava dizendo? A mocinha, malandramente, como diz a música, se aproximou dos caras, estava a fim de se divertir e não se fez de rogada. Mulher que sabe o que quer, que não tem medo de tomar atitudes. Mas, pelo visto, alguma coisa desandou e os caras, babacas como somente homem sabe ser, acharam que só porque ela estava ali se divertindo, era propriedade deles e queria mais do que a diversão descompromissada. Assim, eles partiram para o ataque, provavelmente de maneira incisiva (e se você for inocente, o verso "na hora de ganhar madeirada" é pra ser interpretado ao pé da letra, por favor), e a menina, o que fez? Deu o pé, arrumou a desculpa e, lindamente, mandou a letra: "nóis (sic) se vê por aí!".

Mas, poxa, os caras devem ter ficado chateados. Ela tava dando condição e, do nada, resolveu ir embora? Meu irmão, de boa, se você pensou em verbalizar isso, eu dou a dica: cala a boca! Sabe qual o nosso problema? Achar que as pessoas, as mulheres em especial, existem para servir aos nossos interesses, ao nosso prazer. Não, meus caros, a vida não é assim. E mesmo se ela estivesse pelada, pronta pra começar uma orgia, se decidiu ir embora, malandramente, era o direito dela fazer isso, goste você ou não.

Lembro de um texto do meu amigo Paulo Henrique Brazão, publicado aqui mesmo no Barba Feita e que, por sinal, falava também de empoderamento feminino baseado em uma música de sucesso na ocasião. Trata-se do texto Afinal, O Que Quer a Novinha Avistada no Grau?, em que o PH explicava o óbvio e que, tantas vezes, a gente faz questão de não enxergar: quem manda no corpo do outro e nos seus desejos é ele mesmo. Chega de cultura do estupro (sim, ela existe), chega de justificar o injustificável. E a melhor forma de lidar com o seu preconceito é encarando-o e desconstruindo-o.

Assim, ao analisar a letra de uma musiquinha casual, fico até um pouco feliz de ver que não, esse não é apenas mais um funk inútil para ser dançado na balada. Mesmo cantado por um cara, que parece ter ficado chateado com a mulher, a letra diz muito sobre empoderamento, coragem e atitude. E a mocinha malandra da letra só merece os nossos aplausos.

E é assim, musical, que me despeço hoje. Malandramente. E com um recadinho para cada um de vocês: nóis se vê por aqui! ;-)


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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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