quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Que Esperar Quando Se Está Esperando





A expectativa é uma coisa... muito doida. Não doída, com acento agudo. Doida mesmo, que nem louca. Embora também possa ser algo doído... A expectativa é algo que movimenta as nossas vidas, é o que nos faz levantar diariamente, o que nos faz planejar nossas trajetórias, às vezes, para diversos anos sem mesmo sequer saber como estaremos lá na frente. O problema da expectativa é que ela é uma árvore que gera dois frutos distintos: a realização e a decepção.

O fruto doce, a realização, é talvez a grande recompensa da vida. É a viagem dos sonhos que finalmente sai do papel; é o relacionamento cheio de amor que ultrapassa inimagináveis anos; é o emprego de referência no seu mercado. Podem ser coisas ainda mais simples, como apenas tomar o sorvete e ver que ele realmente é tão gostoso quanto parece na foto; pode ser ultrapassar os seus limites em um exercício físico; ou ver que é capaz de assar um bolo ou fazer feijão em uma panela de pressão.

Em compensação, o fruto amargo carrega o nome de decepção. Quantas vezes na vida não nos decepcionamos e sofremos, única e exclusivamente porque esperamos algo de alguém? Pode ser a urucubaca que parece ter se abatido sobre os seus lindos dias de férias; ou o desestímulo e o insucesso no trabalho; ou mesmo o relacionamento que parece lindo, mas guarda mágoas ou feridas causadas por uma atitude incauta ou inconsequente. Pode ser também o seu time ficar tão perto da liderança do campeonato e agora estar apenas em terceiro lugar, longe do título, já perto do fim; ou a comida que definitivamente não é tão boa quanto no cardápio; ou a festa onde a animação passou longe; ou o livro escrito por você que sequer a sua família leu.

Nós nascemos já sendo esperados, por nove longos meses normalmente. Esperamos o momento em que nos tornaremos adultos e poderemos fazer tudo o que desejamos, donos dos nossos próprios narizes. E, de repente, nos vemos saudosos de viver a infância que ficou lá atrás. Por outro lado, ninguém espera envelhecer, mas também não deseja a outra opção, que é morrer. A expectativa é também, cheia de paradoxos, havemos de constatar. 

Quantas vezes não depositamos nossas expectativas sobre alguém e essa pessoa sequer sabe disso? Quantos pais não imaginam uma vida de comercial para os filhos, formando uma família convencional no futuro, com netos lindos e amáveis; depois, acabam tendo grandes amarguras porque o filho se revela gay ou a filha lésbica, ou mesmo são heteros que decidem não ter filhos ou mesmo casar? Quantos não esperam uma vida de fidelidade como sinônimo de amor e descobrem puladas de cerca dignas de fazer o mundo cair, como diria Maysa? E aqueles que ficam ávidos por serem lembrados pelos seus amigos em um fim de semana, mas depois os veem se divertindo nas redes sociais sem você?

Esperar não é o contrário de fazer acontecer; é o estágio anterior. A expectativa sempre antecede algo, seja uma boa notícia ou uma frustração. E a dura realidade é: não há como colher apenas um fruto dessa árvore. O jeito é saber se equilibrar.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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