quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Só Não é MiMiMi Quando é Com Você




Vamos ser honestos por um segundo? Quantas vezes em um post do Facebook, ao ler uma reclamação de alguém, você não pensou que era mais um mimimi? Vamos lá, pode dizer aí que eu espero. Pois é, várias vezes. Mas será mesmo que era sem sentido? Será mesmo que era só mais um mimimi aleatório passeando pela sua tela?

Antes de mais nada, é preciso que se entenda uma coisa. Desde que o conceito de mimimi foi “inventado”, qualquer pensamento ou comentário contrário ao de alguém é encarado como um mero mimimi. Odeio por si só essa definição. Mimimi não é nada. No mínimo, uma onomatopéia que ganhou um significado inteiramente novo nessa era de redes sociais por todos os teclados e opiniões por todas as nossas timelines disponíveis. 

O que mais me irrita é que essa palavra ganhou superpoderes. E de uma simples expressão tornou-se um argumento completo e irrefutável. Agora, quando uma pessoa sente preguiça de debater ou pensar em uma resposta sobre certo assunto, fica mais fácil dizer que o outro está fazendo mimimi sobre determinado caso, quando não existem argumentos para serem debatidos. Afinal, é sempre mais fácil dizer que a culpa está no outro do que ter paciência de refletir e dialogar, até chegar em uma conclusão mais elaborada, do que uma repetição de duas simples letras.

Sobre esse efeito constante do uso de mimimi, uns dizem que o mundo está ficando chato e que as pessoas reclamam de tudo. Não se pode mais fazer brincadeira, ter senso de humor ou fazer uma piadinha sequer. Tudo é visto e encarado como de mau gosto. Também concordo com isso, guardadas as devidas proporções, claro. 

É preciso lembrar que algumas pessoas defendem uma bandeira que não é sua, com base no que elas acreditam como o outro irá se sentir. Se existe algo que aprendi nesse curto espaço de tempo é que não se pode roubar protagonismo de ninguém. Quem sou eu, por exemplo, para falar sobre piadas com pessoas de baixa estatura? Tenho 1,79 de altura. Não sou um gigante, mas também não sou pequeno. Tenho um tamanho, considerando a altura base do país onde nasci, bem na média. Ou seja, posso reclamar que não tenho a altura que desejaria, mas nunca, em hipótese alguma, poderia dizer nada com relação a ter menos do que 1,79. Eu não sei, por exemplo, como é ter 1,70. Sim, eu sei que já tive essa altura em algum momento da vida enquanto crescia, mas não faço ideia de como me senti nessa época. E isso ocorreu em um momento, que minha idade, essa altura, era um mero detalhe. Nunca sofri nenhum preconceito por conta da minha estatura. Ou mesmo me senti ofendido por alguma piada nesse sentido. O que posso meramente sentir é empatia quando escuto uma piada que acredito ter gosto duvidoso. Posso, inclusive, até dizer que esse tipo de “brincadeira” pode não ser adequada. Mas é preciso ter em mente que não posso dizer, em momento algum, como o outro irá se sentir, já que não sei, por vivência, como é estar no lugar daquela determinada pessoa. Entendeu o ponto em que quero chegar? 

Você, muitas vezes (muitas mesmo) pode pensar que é besteira quando alguém reclama do modo como você disse determinada coisa. Já que a ideia era se expressar e não ferir ninguém. Mas nossos discursos, infelizmente, são carregados de preconceito. Velados ou não. E, em alguns casos, é no momento em que somos chamados atenção é que nós ficamos mais preocupados em nos defender do que entender que o problema não está na gente (em alguns casos a pessoa é o problema, mas isso é papo pra outro texto), mas na palavra que escolhemos usar.

Fofo é o melhor exemplo que posso ter agora. Uma pessoa ser chamada de fofa significa que ela é alguém amável, gente fina, que chama atenção por adjetivos positivos, correto? Então, mas e se essa pessoa estiver acima do peso? A palavra ganha um prisma um pouco maior. Suas possibilidades de interpretação também se ampliam. E de elogio, pode se tornar rapidamente um eufemismo, já que a palavra gordo tornou-se quase um xingamento com o seu constante uso de maneira equivocada. Chamar alguém de fofo pode ser um jeitinho de dizer algo sem “ferir muito”, pode pensar alguém que não seja considerado gordo. Mas você, que não é considerado gordo, já parou para pensar que alguém que esteja acima do peso pode ser uma pessoa fofa por conta de sua personalidade e não de seu peso? Sim! Claro que sim. Quem não conhece um gordinho que seja uma pessoa fofa, não é mesmo? Então, isso significa que o meu texto não precisaria existir e tudo o que escrevi anteriormente não tem validade e tá tudo certo, vida que segue. Mas é nesse pensamento que mora todo o problema. 

Quem não vive o problema, reclama de que se está fazendo um mimimi sem razão. Só que normalmente, essa mesma pessoa passa a fazer o seu próprio mimimi quando sofre por algum motivo específico, que só ela conhece, e por aí vai a eterna roda de julgamento e reclamações que estamos nos viciando em ler por aí. A não ser que esteja acontecendo com você, a reclamação do outro acaba sendo tida como chata e sem sentido de existir. Já que ao usar determinada palavra não “tinha intenção de ferir" ninguém, isso deve, automaticamente, te ausentar de qualquer culpa. Qualquer responsabilidade por uma treta que se inicia e textões que são feitos e compartilhados aos montes.

Não, pequeno gafanhoto. Você pode refletir antes de dizer determinada coisa. E se não tiver certeza se será ou não interpretado de maneira equivocada, prefira não dizer. É bem mais simples! O mimimi pode acabar, mas é preciso que a gente deixe de ser egoísta primeiro!

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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