terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Fera





Fred estava sentado em posição de lótus em sua cama, os olhos fechados e a expressão de quem estava com uma baita dor de cabeça. E de fato Fred estava com uma baita dor de cabeça. Sentia as pancadas do lado de dentro de sua mente, o que tornava tudo mil vezes pior. 

"Inspirar. Respirar. Inspirar. Respirar.", ele pensava consigo mesmo, no meio de todo aquele caos interno que acontecia ali. Seu colega de apartamento, Yago, havia sido vítima de racismo e, enquanto relatava o caso, Fred ouvia e sentia aquela sensação familiar de algo querendo sair e ir atrás de quem havia feito mal a alguém próximo a ele. "Inspirar. Respirar. Inspirar. Respirar.", pensou mais forte. 

Fred não podia deixar aquilo sair. Não ia adiantar nada, de qualquer forma. Uma gota de suor escorreu da testa e passou bem próxima ao olho direito. Ficava mais difícil de respirar, Fred tentava não pensar nas palavras duras que Yago ouviu, na reação dele, nas lágrimas, na revolta do colega e em sua própria revolta, nas unhas marcando a palma da mão, tamanha foi a força que ele fez ao cerrar os punhos. Ouvia mais esmurros em sua mente. Ela queria sair, queria socar alguém, queria vingança, queria retribuir mal com mal.

Aos poucos, a força das batidas foi diminuindo. A respiração foi ficando menos pesada. Aquele arrepio na nuca foi se desfazendo. Fred conseguia sentir o cheiro do quarto outra vez. Conseguia ouvir os carros enchendo as ruas de barulho e fumaça. Conseguia ouvir as batidas de seu coração. Se concentrou nelas. "Inspirar. Respirar. Inspirar. Respirar.", ele pensava com calma. Se demonstrasse que estava fazendo aquilo, que estava desesperado pra que aquela sensação passasse, ela jamais passaria, e ele não conseguiria evitar. Até que conseguiu abrir os olhos. Soltou o ar pela boca, olhou em volta, viu as horas no pequeno relógio digital no criado mudo. Yago bateu à porta:

- Hora de levantar, Fred!
- Ook. - Respondeu com um pouco de esforço.

"Está tudo bem? Que dor de cabeça horrível...". A boa e velha voz em sua mente. Fred a ouve desde muito tempo. Ele até a vê, quando seu reflexo no espelho começa a falar com ele. 

Tudo começou quando ele tinha quatorze anos, e dois garotos da escola começaram a tirar sarro das roupas da mãe dele e por eles serem de baixa renda. Fred não se lembra de nada daquilo, apenas sabe o que alguns de seus colegas contaram: que ele simplesmente voou nos garotos, completamente insano, enfiando dedo nos olhos, puxando cabelos, dando socos em seus rostos. Primeiro um, e quando o outro veio pra cima, Fred se jogou contra o segundo, rolando com ele pelo chão, deixando o garoto jogado, enquanto chutava e esmagava os órgãos genitais dele. Foram precisos três pessoas para segurá-lo, enquanto ele rosnava, e alguns dizem que ele até espumou, com seu olhar de psicopata, alucinado, como se estivesse sob o efeito de alguma droga. E mesmo com três pessoas o segurando, ele quase escapou.

- Logo a dor passa. Estava impedindo uma catástrofe.

"A Fera outra vez? Eu imaginei que ela fosse tentar sair, depois do que ouvimos ontem..."

- Exatamente. Mas vai passar. Nada que um bom banho gelado não resolva.

Fred conseguia falar mentalmente com sua voz, que ele carinhosamente chamava de Bruce, mas sempre que podia, respondia em voz alta, se sentia mais confortável. Quando Bruce surgiu, Fred pensou que estava tudo perdido e que seria internado, mas a psicóloga que o acompanhava desde os quatorze, quando A Fera surgiu pela primeira vez, foi também sua amiga e cúmplice. Fred jamais se sentiu confortável com alguém, como se sentia com a Dra. Amélia. Quando ele implorou pra que ela não dissesse nada a seus pais, nem o forçasse a tomar remédio algum, ela não insistiu, apenas disse que eles venceriam juntos, e que ela era sua amiga.

Saiu do banho, se arrumou e desceu para tomar café. Encontrou Yago na cozinha, vestindo apenas camiseta e samba-canção.

- Caramba, que demora pra sair daquele quarto, hein? Tava batendo uma?

"Antes fosse..." Bruce retrucou.

- Antes fosse. - E riu. - Não vai trabalhar hoje?
- Hoje é dia de home-office, esqueceu?
- Ah é, verdade. Desculpe, é que acordei com uma dor de cabeça enjoada...
- Tem remédio na caixinha de medicamentos.
- Beleza, vou tomar com café e ir trabalhar.
- Você se alimenta muito mal, sabia?
- Ih, não vem você com essa também.

"É, já basta o Pedro enchendo o saco.".

- Exatamente.
- Exatamente o que, Fred?

Fred se odiava por esquecer e responder Bruce em voz alta quando estava perto de alguém.

- Nada, estava pensando alto, só isso. Pode deixar, vou comer uma fatia de pão, pra fazer o seu dia mais feliz.
- Eu agradeço. E Pedro também. Por falar nele, o que vão fazer pra comemorar os dois anos de namoro?
- Ah, não sei... Ando tão indeciso. Tem aquele restaurante que ele gosta, sabe? O... como é mesmo o nome?

"Ambrosio's."

- Ambrosio's.
- É uma boa ideia, mesmo. Por que não vão ao cinema, e depois vão jantar? Seria bacana, não?
- Sim... gostei, vai rolar.
- Ótimo, agora vá trabalhar. Você tem que voltar cedo pra se arrumar.
- Certo, certo, até mais tarde. Ou não. - Piscou para Yago, dando um sorriso sem vergonha.

Enquanto caminhava para o trabalho, que ficava a três quadras de onde morava, Fred tentava visualizar todo o plano para a noite. Cinema, jantar, e uma noite bem romântica, num quarto todo decorado com fotos dos dois, balões presos nos tetos, pétalas de rosas em volta da cama, não em cima, porque ficaria muito óbvio, e, segundo Bruce, atrasaria o sexo. Fred não sabia se deveria contar para Pedro sobre Bruce, e sobre a Fera. Era uma situação delicada, e mesmo não havendo necessidade, ele gostaria de se abrir totalmente com seu namorado, afinal, ele sabia tudo sobre Pedro e, bem... Pedro não sabia sobre esse pequeno detalhe a respeito do namorado.

Fred trabalhou freneticamente e quando deu a hora de sair ele não pensou duas vezes e foi pra casa. Tomou banho e parou para escolher roupa.

- Ei, Yago, pode subir aqui? Não sei que roupa usar.

"Você vai mesmo pedir pra um hétero te ajudar a escolher o que vestir?"

- Quieto.

"Tudo bem, mas eu não sei se camiseta polo e sapatênis combinam pra comemorar dois anos de namoro, viu?"

- Bruce!
- Quem é Bruce? - Yago surgiu na porta, trajando bermuda e camiseta.
- Ah... tô pensando em adotar um gatinho. Bruce é um nome bom pra um gato, não acha?
- Sério? Que legal! Vai ser ótimo termos um gato aqui. Por mim esse nome tá ótimo.

"Ótimo, agora teremos um gato... Se saiu muito bem, Frederico.".

- Cara, por que não usa essa camiseta azul, com a calça cáqui e o coturno? Vai fica irado.

"Não pode ser... O hétero fez uma escolha certa!". Fred se segurou para não rir, afinal, seu colega não entenderia nada.

- Arrasou na escolha, cara, valeu!

Roupa colocada, perfume passado, Fred foi encontrar seu amado. Quando viu Pedro parado em frente ao Shopping, o coração de Fred acelerou, mas de um jeito bom, de um jeito ótimo. Não pôde conter o sorriso, e nem queria. Pedro tirava o ar dos pulmões de Fred. E o melhor: Pedro era a única pessoa que segurava a Fera, e até mesmo Bruce.

- Olá, meu pedaço de diamante negro. - Fred agarrou Pedro pelo pescoço e lhe tascou um beijo demorado.
- Olá, meu pedaço de torta de coco ralado.

De mãos dadas, os dois entraram no shopping, assistiram ao filme escolhido por Pedro, depois foram ao Ambrosio's. Lá por volta da uma da manhã, os dois saíram e foram caminhando até o ponto de táxi mais próximo, já que na cidade não havia Uber. Dobraram à direita e já avistaram o ponto de táxi, no final da rua. Foi quando uma barra de ferro atingiu Pedro na nuca. Fred foi o próximo.

Dois homens musculosos seguravam Fred pelos braços, enquanto dois seguravam Pedro, e um terceiro balançava a barra de ferro de forma psicótica.

- Que horror... Além de preto, é viado. Mas você gosta de um negão, não é, cara? - Perguntou para Fred, que ainda estava zonzo pela pancada. Ao olhar para Pedro e ver que haviam lhe tirado a roupa e espancado mais, Fred começou a sentir o sangue subir.

"O que houve...? Fred, onde estamos?". Fred não respondeu, apenas olhava para a barra balançando na mão do homem desconhecido, para o sangue no rosto de seu namorado, e para os rostos dos  homens que seguravam Pedro. A respiração começava a acelerar.

"Fred, o que tá acontecendo? Você precisa se controlar... Fred...". Bruce ouviu, talvez pela primeira vez, a Fera esmurrar a mente de Fred.

- Soltem ele... Façam o que quiserem comigo, mas soltem ele... - A voz embaralhada.
- Que bonitinho... Quer defender sua mulherzinha? Ou será que você é a mulherzinha? - O homem desconhecido desferiu um soco no estômago de Pedro, que o fez acordar, tossindo.
- Não! - Fred sentia o coração acelerar, a Fera rosnava em sua mente, ele precisava se concentrar. Lutava Kung-Fu, Boxe, Karatê, Jiu-Jitsu e Taekwondo, tudo pra extravasar e manter a Fera afastada, e também pra poder se defender, mas não sabia se ela saberia usar tudo isso a seu favor, ou se agiria feito o Hulk e sairia berrando e destruindo tudo ao seu redor.
- O que tá acontecendo? - Pedro conseguiu falar. - Quem são vocês?
- A gente vai acabar com a raça de vocês, seus viados de merda. Vocês são abominações que devem morrer!

Fred sentiu o sangue ferver, a respiração ficou mais pesada, a Fera rosnava mais alto, sua pele suava e ele conseguia sentir as mãos dos dois homens segurando seus braços.

- Que tal... começar pelo joelho? - O homem desferiu um golpe no joelho de Pedro, que o fez gritar de dor e agonia.
- CHEGA!

"Fred... Fred... O que tá acontecendo...? Faz parar...". Bruce se sentia fraco, estranho, não conseguia fazer nada para ajudar.

- Vai morrer o preto viado primeiro. - Um golpe no outro joelho, mais um grito de Pedro.
Fred impulsionou seu corpo pra frente e os dois homens se olharam assustados porque aparentemente ele não parecia tão forte assim.
- Ou o que, viadinho? O que você acha que pode fazer contra nós cinco? Hein? - Desferiu um soco no rosto de Pedro. E então Fred apagou.

Quando voltou a si, Fred estava de pé, e os cinco homens desmaiados, sangrando. Pedro encolhido num canto, olhando aterrorizado para o namorado, que tinha sangue respingado por todo o corpo, e um olhar feroz, como um animal selvagem. Quando seus olhares se encontraram, Fred sabia que estava tudo acabado. Pedro havia visto a Fera solta, e agora estava com medo. Se encolheu mais quando Fred se aproximou para ver como ele estava.

- Fred... o que você... como você... tem sangue em você todo...
- Pedro, olha... - Mas não adiantou.

Fred chamou a polícia, e logo sirenes foram ouvidas, ambulâncias surgiram, os dois foram tratados, depuseram, e os cinco homens foram presos. Eram uma gangue que atormentava negros e homossexuais, mas que ninguém sabia quem eram.

No hospital, Pedro contou para Fred o que viu: ele se livrou dos que o seguravam, socou um, desviou do segundo e o derrubou, estraçalhando a mandíbula com o pé, numa velocidade incrível. Os outros dois jogaram Pedro no chão e foram até ele, mas caíram rápido, porque Fred saltou e deu com os pés nos peitos deles, caiu e logo se levantou para pisotear os órgãos genitais de um, socando o peito do outro, bem no coração. O homem da barra de ferro não teve chance. Fred o desarmou em segundos, derrubou no chão, saltou de joelhos sobre seu peito e o esmurrou com toda força possível. Voltou e esmurrou o rosto de cada um dos que havia derrubado, dando chutes, quebrando seus joelhos, pisando em suas barrigas, enquanto rugia e chorava de ódio.

Fred tentou explicar, mas Pedro não quis ouvir. Apesar de se grato por ter sido salvo, Pedro não conseguia olhar para Fred sem sentir medo. 

Ao sair do quarto, olhou para seu agora ex-namorado, seu ex-diamante negro deitado na cama e, junto com a tristeza de ter perdido seu amor aos dois anos de namoro, mesmo ainda estando vivo, veio uma raiva que ele sabia o que era, de onde vinha. E que agora não ia mais segurar.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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2 comentários:

orquidea disse...

Com esses casos de homofobia partindo de psicopatas que tem acontecido, seria bom que todo gay tivesse uma fera dessas pra soltar em momentos de perigo.

Glauco Damasceno disse...

Concordo, Orquídea!