quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As Verdes Cinzas de Uma Tragédia





Passou pouco mais de uma semana e eu não dei uma palavra sobre esse assunto nas redes sociais. Foi uma semana, em nível pessoal, de comemorações: completando dois anos de Barba Feita e 12 anos de relacionamento amoroso. Tinha uma série de coisas boas para serem lembradas, mas houve uma trágica em especial que não poderia ter sido esquecida. O Brasil se comoveu com o acidente (acidente?) com o avião da Chapecoense, que matou o time quase inteiro, mais comissão técnica, tripulação e jornalistas.

Quando da morte do ator Domingos Montagner, já falei aqui antes que quando um famoso se vai, ainda mais na plenitude de sua fama, isso nos lembra do quanto somos finitos. Assim foi com Domingos, assim era com a Chapecoense, cujo time estava prestes a enfrentar a partida mais importante das suas vidas. Se até esses caras, no auge da sua forma, com toda a vivacidade e uma expectativa épica sobre eles, sucumbiram ao imponderável e inapelável fim, quem somos nós para resistirmos a ele, reles mortais?

Sou um cara ligado a esportes, em especial o futebol. Acompanho o campeonato brasileiro, torço para o meu time (Flamengo até morrer) e conhecia minimamente aqueles jogadores e comissão técnica que se foi. Mas para mim, o que mais me fez sentir quando acordei naquela manhã com a notícia da queda do avião, foi ver que, pela primeira vez, uma tragédia coletiva de proporções internacionais chegou tão próximo... Entre os jornalistas mortos, havia grandes amigos de amigos. E o marido de uma amiga de trabalho, com quem tinha convívio diário. Ele eu não cheguei a conhecer pessoalmente, mas conheci seu filho pequeno, que agora crescerá sem o pai; além da viúva em si: uma pessoa doce, alegre e querida. E o pior é saber que tudo por pura negligência e economia porca, que ceifou vidas de forma banal.

Quando resolvi ser jornalista, um dos meus sonhos era ter ido para o lado esportivo. Ao passar pelo processo seletivo para estágio da TV Globo, em 2005, coloquei como primeiras opções o SporTV e o Esporte da Globo (na época, ainda separados). Não fui aceito pelo chefe do Esporte, mas quis o destino que entrasse para a Editoria Rio, que cuidava do RJTV e do Bom Dia Rio. Anos depois, acabei indo parar na assessoria de imprensa e trabalhando com economia, saúde, telecomunicação... Longe do esporte. Ainda assim, sempre acompanhei e conhecia muitos daqueles nomes que partiram na queda na Colômbia.

Independentemente de afinidades, há que se ter humanidade nesse momento. Toda e qualquer morte é para ser sentida. Foi isso que mostrou o povo colombiano na homenagem em Medellin. Foi isso que mostraram as diversas homenagens mundo afora dentro e fora de campos de futebol. Nas redes sociais, nas ruas, no próprio velório do time dentro da Arena Condá, palco de tantos momentos célebres do time. Ao ver a cerimônia fúnebre repleta de caixões no último domingo, pela primeira vez tive vontade de chorar com tudo isso. Porque essas mortes transcendem um escudo futebolístico: elas nos recordam das centenas de pessoas que tinham convívio com aquelas que partiram e que agora sentem a sua ausência. E as milhares que assistiam aqueles jogadores e jornalistas e que, sim, encontravam neles uma empatia de um ideal maior, que era a paixão por um clube.

Essa tragédia serviu, ao menos, para nos lembrar da essência daquilo que é uma torcida: algo quase etéreo que une um grupo de pessoas para apoiar um ideal, seja ele nobre ou não. Algo que move e comove um coletivo. Algo extremamente humano, algo que nos identifica enquanto espécie, seja ele futebol, escola de samba ou RuPaul’s Drag Race. Ver torcidas organizadas de clubes rivais, que costumam ter brigas sangrentas e até letais, se unirem para cantar os gritos de guerra da Chapecoense foi humano demais. Um estádio inteiro em Medellin, que sequer conhecia aquele time, também.

Catar ensinamentos das cinzas de uma tragédia é duro e pode até parecer piegas, mas é necessário. Que os corações daqueles que sofrem sejam confortados. E que esse sentimento de impotência que se abateu sobre tantos, como eu, sirva de despertar para uma vida mais humana e proveitosa.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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