segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Encontros Inusitados e Histórias Surreais





Estou em um grupo do WhatsApp criado pela organização da festa em que passarei o Ano Novo. É um bando de gente aleatória, mas que pretende se divertir muito na virada do ano, o que acho justo e mais do que certo. E nesse grupo rola todo o tipo de papo, dos mais interessantes às mais diversas bobagens. Como em qualquer grupo de WhatsApp.

Mas foi numa conversa do grupo que me lembrei dessa história, de quando eu ainda era um rapaz recém chegado ao Rio de Janeiro e me habituava com a efervescência de possibilidades que essa cidade nos proporciona. E, relembrando hoje ao escrever esse texto, me divirto novamente com toda essa história que aconteceu lá no início de 2010...

Era uma terça-feira. Como eu fazia naquela época, cheguei em casa da natação cansado, liguei o computador, li uns emails, e lembro claramente que assistia ao BBB de então. Mesmo cansado, estava sem sono e depois de assistir a todo o programa, deitado na cama, fiquei rolando para lá e para cá por algum tempo, sem conseguir dormir. No tédio, resolvi fazer algo que era bastante comum na época: entrei numa sala de bate papo.

Todos sabem bem como são as salas de bate papo, né? Apesar de menos comuns hoje em dia, graças aos diversos aplicativos sociais que se multiplicaram, as salas continuam atraindo algumas pessoas dispostas a papear e, quem sabe, se aventurar no mundo fora do virtual. Mas é aquele tipo de coisa, é preciso ter paciência. São mill horas de papo furado e superficial com mil pessoas diferentes, para não se chegar a objetivo nenhum. Depois de muitos ‘como você é?’ e ‘a fim de real?’ que começavam a finalmente me dar sono, ele puxou papo comigo.

Usava um nick sutil: um nome próprio e não aquelas aberrações que vemos nesse ambiente. Perguntou a minha idade e se eu gostaria de conversar um pouco. E começamos. Papo interessante para uma sala daquelas e acabamos trocando o máximo de intimidade daqueles tempos: o MSN. 
Ele não tinha foto na exibição e eu, engraçadinho que sou, tive de perguntar:

- Você é feio? Somente feios não colocam foto no msn. - eu perguntei.
- E você é escroto? Somente alguém escroto pra perguntar algo do tipo…

Eu ri, gostei dele imediatamente e continuamos nosso papo. No meio da conversa ele pediu minha webcam e eu liberei. Ele me viu, fez alguns comentários e quando eu perguntei se ele também tinha, ele disse que sim, mas que não poderia abrir. Eu fui direto:

- Beleza! Vou te deletar. Não falo com pessoas sem rosto!

Me chamou de nervosinho e pediu meu telefone. Sei lá porque, passei. E ele me ligou e com aquela voz interessante e papo pra boi dormir, conseguiu me convencer a encontrá-lo sem ver nada dele antes. Sim, eu sei, sou louco. Mas, sei lá. Ele tinha algo mais, um bom papo, algo de sedutor que me atraia.

Mas se ele não mostrava o rosto, eu seguia as minhas regras. Disse que não sairia de casa e do meu bairro e, se ele quisesse mesmo me ver, que se despecansse de onde morava até uma pizzaria perto da minha casa de então e, quando estivesse lá, que me ligasse e eu desceria para encontrá-lo. Ele disse que tudo bem, que não se importava. Vinte e dois minutos depois ele me ligou e disse que estava no local marcado.

Desce do meu apartamento e ao sair do meu prédio vi o carro parado em frente à pizzaria. Ele, que me reconhecia, colocou a cabeça para fora e me chamou até ele. Era bonito, o que me surpreendeu, e tinha um certo ar familiar, mas eu não sabia de onde o conhecia. Entrei no carro, nos apresentamos e ele ainda fez uma brincadeirinha com respeito aos nossos nomes. O papo era agradável enquanto dávamos uma volta para um conhecimento inicial, até que ele, do nada, virou para mim:

- Você está se fazendo de desentendido ou realmente não sabe quem eu sou?
- Sinceramente? Você me tem um ar familiar, mas eu não faço idéia de onde posso te conhecer.
- Ah, sim… É que eu sou ator, já fiz novelas na Globo e na Record. Meu nome é Fulano… De Tal!

PUTAQUEOPARIU! – foi o que consegui murmurar. Quando ele disse seu nome e sobrenome, tudo fez sentido e o rosto familiar ganhou contornos muito conhecidos para mim e finalmente descobri de onde o conhecia.

Ele riu, eu ri e acabamos no apartamento dele, ali pelo Humaitá. Aquele homem lindo, famoso, que eu, quando bem mais novo via em posters no quarto da minha prima, estava ali, no apartamento dele, comigo. Me desejando, me abraçando, totalmente real e ao alcance das minhas mãos.

Foi uma noite excelente. E, depois de tudo, ainda ficamos deitados na cama, conversando, rindo um pouco. E eu fingindo naturalidade ao estar ao lado dele, alguém que eu nunca imaginaria sequer conhecer. Tomei um banho e ele insistiu para eu ficar um pouco mais, entretanto, a madrugada já avançava e eu trabalharia cedo. Ele se vestiu e me levou até meu prédio.

No meu quarto, pronto pra dormir, eu imaginava como o Rio era uma esquina e como minha vida daria uma boa de uma novela (mexicana, eu admito). E quando estava quase adormecendo meu telefone tocou de novo. Era ele, dizendo que tinha gostado de me conhecer e que a noite tinha valido a pena. Que os contatos estavam salvos e que ele adoraria me rever novamente.

Pois é. Em 2010 aquilo foi bastante surreal pra mim. O que a gente aprende depois de um tempo vivendo nessa cidade, entretanto, é que os "famosos" estão por aí em todos os lugares e, quase sempre, não tem nada demais. São gente como a gente, com necessidades iguaizinhas e que, muitas vezes, até que bem acessíveis. Em todos os sentidos.

Ah, mas quem é o cara?, você pode estar se perguntando. Nesse caso, em específico, prefiro contar o milagre, mas não o nome do santo. O que aprendi na vida é: quem come quieto, come duas vezes!

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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