sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Então é Natal no Ano 3000... E o Que Você Fez?





Uma madrugada dessas, naquele momento em que ficamos deitados fuçando as mensagens do WhatsApp, atualizando o Instagram e dando umas curtidas aleatórias em posts no Facebook até o sono chegar, fui até o calendário do telefone e fiquei checando, ano a ano, em que dias da semana cairiam os próximos Natais. Nesse vai-vem, cheguei até o ano 3000.

Neste ano, dia 25 de dezembro cairá numa quinta-feira. Obviamente, a sexta seria enforcada e teríamos quatro dias de folga, mas nem eu e a minha 10ª geração estariam aqui. Neste ano eu teria 1.031 anos. 

Mesmo sabendo dessa ordem lógica da finitude, é estranho saber que, mesmo depois de nossa partida, o sol continuará ali nascendo e as pessoas continuarão comemorando ao redor de uma árvore cintilante multicolorida. 

No ano 3000, Papai Noel será um holograma cibernético, a internet será por transmissão de pensamento e mesmo que as Lojas Americanas não existam mais, certamente a canção da Simone ainda estará rolando no mundo virtual em loopings de dez horas de duração e playlists de coletâneas pré-históricas do iTunes, acompanhado de Jesus Cristo, com Roberto Carlos. 

Imagens tremidas e cheia de riscos com resquícios do Show da Virada, fotogramas antropológicos mostrando a baianice de uma Ivete Sangalo saltitante e um chororô-de-corno de uma modinha passageira formada por Marília Mendonça, Maiara e Maraisa e Simone e Simaria serão comercializadas a preços exorbitantes na deepweb. Copacabana não mais existirá por causa do aumento do nível do mar. Os indivíduos estarão comemorando a data refugiados em suas próprias casas automatizadas e, lá fora, estará fazendo 95 graus com o verão a pleno vapor.

É estranho ficar pensando nessas coisas, ainda mais através de uma forma tão surreal, mas às vezes essas loucuras batem na minha mente. Somos muito pequenos próximos à dimensão da existência. Vamos embora, mas o calendário do IPhone continuará a existir, pois a vida continua lá fora. 

Nesta época, sempre lembro de minha infância e da noite na casa da minha avó com toda a família reunida, com os cômodos sendo invadidos pelo cheiro das rabanadas quentinhas, os bolinhos de bacalhau e o bolo de nozes, que atiçavam o sentido do paladar. 

E sempre me emociono ao recordar do pratinho que deixava para a figura mágica de Papai Noel. Eu, meus irmãos e primas preparávamos o prato e cada um colocava o que quisesse: algumas uvas, rabanadas, bolo, uma fatia de pernil, um pedaço de peru, bombons e uma carta agradecendo a visita. Lá pela madrugada, ainda trôpego pelo sono, me dirigia até à sala com as paredes reluzentes e ficava encantado com a árvore repleta de presentes.

Mas o que mais me fascinava era ver que todo o pratinho havia sido devidamente devorado pelo suposto bom-velhinho. Minha tia contava que ele viajava de muito longe para visitar cada criança em todo o mundo. E que na viagem, ele sentia muita fome pois tinha que fazer tudo rápido, antes que o dia amanhecesse. Encontrar o prato vazio me deixava sempre com os olhos cheios d'água. Na minha cabecinha infantil, achava que o lanche que preparávamos era responsável por fazer com que o Papai Noel tivesse energia suficiente para percorrer o mundo.

Me sentia um herói, certamente.

Daqui a 1.031 anos, certamente não estarei mais aqui. Nem eu, nem você e nem nossa décima geração. E por mais que saibamos disso, ainda desejamos que indícios da magia ainda perdurem, mesmo que sob um outro cenário, uma nova ótica de como enxergar o Natal. 

Amanhã é dia dos cômodos da casa ficarem novamente impregnados pelo cheiro das rabanadas. E tomara que ainda sejam assim no ano 3000.

Então é Natal. E o que você fez?

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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3 comentários:

Marcia Pereira disse...

Feliz Natal pra você e sua família, querido Marcos Araújo! Me fez passar um filme na minha cabeça agora, porque é exatamente assim!

Rejane Cordeiro disse...

A espera pelo Bom Velhinho tinha uma magia, lembro de algumas passagens na minha infância e fiz questão de passar isso para as minhas filhas, que hoje lembram dos momentos com muito carinho. Espero que passem para as outras gerações que ainda virão.
Hoje você pode ser o Papai Noel na vida de uma criança e compartilhar a magia que hoje você lembra com tanto carinho, o que acha?
Feliz Natal, curta bastante sua família!!

Marcia Marino disse...

Que texto gostoso.... Assim como as rabanadas!! Feliz Natal 🎄 🎄 🎅 🎅, meu querido amigo!!! Muita luz parra vc e sua família!!!