domingo, 11 de dezembro de 2016

Mais Um Texto Sobre HIV, Camisinha e Preconceito?





Não faz muito tempo que comecei a estudar sobre HIV/AIDS mas, com certeza, a melhor parte de ser Infectologista é simples, ver o outro melhorar. Estender a mão e oferecer ajuda, despir-se dos próprios preconceitos e aprender a escutar o outro sem máscaras, hipocrisia ou julgamento. Emprestar o ouvido a vozes que ninguém quer ouvir. Enxugar lágrimas que ninguém quer secar. Dar esperança a quem deixou de acreditar no amanhã.

É por isso que há dez anos eu me dedico à medicina. É por isso que não escolheria outra especialidade. A melhor sensação do mundo é deitar-se após um plantão cansativo, com a consciência tranquila e paz de espírito sabendo que pelo menos uma vida foi salva ou que alguém recebeu a saúde de volta. Que aquele paciente que sofreu nas mãos do sistema, iniciou o tratamento e sente-se melhor. Não há dinheiro no mundo que pague um muito obrigado dito pelos olhos, o sorriso no rosto de quem voltou a ganhar peso ou que voltou a sentir o gosto da comida ou que a febre passou.

Nesse curto tempo, pude ver homens e mulheres, cis e transgêneros, travestis e não-binários. Negros, brancos, asiáticos e indígenas. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Homossexuais, heterossexuais, bissexuais, pansexuais e assexuais. Ricos, classe média, pobres e moradores de rua. Pessoas que contraíram o HIV por via sexual, por transfusão sanguínea, por uso de drogas, de forma acidental ou na gestação/parto. Aqueles que tiveram muitos(as) parceiros(as), apenas um(a), ou o(a) viúvo(a) que redescobriu sua sexualidade. Quem nunca usou preservativo ou só usou de vez em quando ou quem não usou apenas uma vez. Católicos, evangélicos, espíritas, agnósticos e ateus. Alguns dizendo que Jesus ia curar, alguns iludidos por promessas de charlatões, outros confiantes que a ciência é o instrumento que Deus usa para melhorar a vida das pessoas e, o mais emocionante, quem orasse com as mãos sobre os remédios, em suplica, para que os mesmos não fizessem mal. Houve quem tomasse o primeiro esquema terapêutico, o segundo, o terceiro e aquele já sem opção.

Já fui rejeitado por ser novo, recebi olhares desconfiados por ser inexperiente e, em contrapartida, já fui o único confidente, a única pessoa para a qual pudessem se abrir e, talvez, o único amigo. Tudo isso para falar que o HIV não tem cara, o vírus não é seletivo e não se importa com quaisquer das nossas diferenças de gênero, étnicas, sociais ou culturais.

Pessoas tão diferentes, porém, todas com a mesma opinião, TODAS concordam que a pior parte é o PRECONCEITO. Tomar remédios é questão de adaptação, fazer exames semestrais não é tão doloroso, ir a consultas médicas não é sacrifício, viver de forma saudável é necessário. Mas o preconceito, essa é a parte que realmente machuca, mais segrega, mais exclui, mais deprime. O pré-conceito nascido da ignorância, que por sua vez causa aversão. O medo surge do desconhecido e a falta de informação é o combustível desta chama que consome tantas vidas. Seja o medo de se testar, seja o medo de se tratar, o medo da rejeição ou seja a falta de medo na hora de se proteger. O medo ou a impossibilidade de abrir-se e compartilhar suas angústias, tornando a dor fria e silenciosa, quando o que mais se precisa é um ombro e um colo.

Por isso, hoje e sempre, proteja-se, use camisinha. Vacilou e partiu para o abraço desprotegido? Procure atendimento médico, veja se você tem indicação à PEP (Profilaxia Pós Exposição Sexual). Teste-se! Saiba seu status sorológico, quanto antes melhor e maiores são as chances de continuar sentindo-se saudável.

Descobriu ser soropositivo? Procure atendimento médico, a medicação é dispensada pelo SUS, o tratamento é gratuito e é SEU direito! Está em tratamento? Tome os remédios de forma correta, a adesão é o principal fator para o sucesso terapêutico e a parte mais importante deste trabalho é sua. A pessoa indetectável (não há vírus circulando pelo corpo) tem uma expectativa próxima da população em geral e já há estudos mostrando uma sobrevida maior, sem contar que o indivíduo indetectável não transmite o HIV e é um(a) parceiro(a) muito mais seguro que aquele(a) aparentemente saudável que nunca testou-se.

Dispa-se dos seus preconceitos. Podem dizer que a vida é melhor sem a AIDS (leia-se AIDS mesmo, não o soropositivo), mas certamente a vida é melhor sem preconceito e isso depende de cada um, diariamente, por todos os dias. Faça sua parte!

O dia 1º de Dezembro foi o  Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Mas todo dia é dia de proteger-se e de despir-se do próprio preconceito.

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Leandro Faria  
Leo Flavio, 25 anos, médico, petropolitano naturalizado carioca, sonha em escrever desde a adolescência. Aprecia bons textos e reflexões, mantém o pensamento aberto, na tentativa constante de se livrar dos preconceitos, o que, às vezes, consegue.
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