quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Ano Em Que Era Pra Eu Ter Morrido





Poucas vezes vi uma unanimidade tão grande na minha vida: 2016 foi um ano terrível no todo. Ok, unanimidade pode soar muito forte; “opinião esmagadora” talvez seja melhor. Essa volta da humanidade em torno do Sol trouxe tantas coisas ruins, tantas más notícias, que até as boas passaram quase despercebidas, diluídas num mar de negatividade coletiva que eu, particularmente, nunca havia visto.

Lembro-me que muita gente reclamava de 2015. No balanço do fim do ano passado aqui no Barba Feita, ressaltei que 2015 havia sido incompreendido. Muitas das reclamações sobre o período eram meramente econômicas: a crise financeira havia batido à porta de casa finalmente. Mas foi em 2016 que ela entrou, sentou no sofá só de cueca e pediu uma cerveja. E houve ainda questões políticas e humanitárias mais graves, que se somaram a esse quadro macro de crise.

Quando 2016 começou, eu tinha muitas esperanças. A expectativa de um ano melhor já começava pela minha simpatia pelos anos pares e também por acreditar que, ao menos no Rio de Janeiro, onde seriam as Olimpíadas, teríamos grandes momentos. Brinquei que um ano em que se tem filme novo de Almodóvar e Tarantino não teria como ser ruim. Tomei uma lambada logo de cara: imediatamente após assistir a Os Oito Odiados, do Tarantino, recebi a notícia de que uma prima da minha idade havia falecido e comecei a sentir as dores daquilo que, em poucas horas, me levaria a uma cirurgia de emergência. Ainda em janeiro, tive uma apendicite. A mesma que provocou o título meio (bastante, tudo bem...) dramático desse texto.

Pode até soar exagerado, mas refleti muito sobre isso à época. Juntou com a morte da minha prima, certamente. Meus pais tiveram a notícia de que eu teria que ser operado às pressas exatamente quando estavam voltando do enterro da sobrinha... Imagina a cabeça deles? Imagina a minha: fui ao hospital achando que era uma zika maldita. Saí de lá só no dia seguinte, com três cortes, cheio de pontos e impossibilitado de uma série de coisas pelos próximos três meses. E a reflexão principal: meu corpo me autossabotou aos meus 31 anos. Não fossem os avanços da medicina, estaria morto um ou dois dias depois, num lento e doloroso processo. Havia a natureza decidido que de janeiro de 2016 eu não passaria. Não contava, ela, com a astúcia dos médicos.

Superada a recuperação (até hoje as cicatrizes não estão ok, mas tudo bem...), até que tive uma meiúca de ano bem da boa. Uma bela viagem à Chapada Diamantina e a Salvador (que eu amo!); a notícia da segunda gravidez da minha irmã; meu aniversário com amigos e família; o lançamento do meu segundo livro, Perversão; novos desafios religiosos; uma Olimpíada inesquecível, que fez ressurgir o espírito carioca e até mesmo patriota e redescobrir pedaços antes decrépitos da cidade...

Pois bem, aquela crise financeira, que já estava sentada no sofá da sala com a cervejinha na mão, resolveu que iria ficar dentro da casa da gente. E apertou geral. Triste ver tantas coisas fechando, tanta gente sofrendo pra levar suas vidas de uma forma minimamente digna. Isso impactou, logicamente, nossos planos e nosso nível de vida. Tempos de aperto, definitivamente, chegaram.

Foi um ano de muitas coisas ruins... Quantas perdas de ídolos tivemos? E de entes queridos, como a prima que mencionei acima? Assassinatos em massa, como a da boate em Orlando, por pura intolerância? Atentados, como o de Nice e Berlim? Um país devastado como a Síria. Quanta tristeza assistimos em nossas televisões e telas de celulares. Algumas delas, vimos acontecer ao nosso lado, sem precisar de cabo ou wi-fi pra transmitir.

Outras questões pessoais, que aqui não cabem elencar, tiveram seus momentos de azedar meus dias e me fazer refletir sobre uma série de coisas. Tantas coisas que pensei em desistir ou dar uma guinada.

Mas sobrevivi. Sobrevivemos.

2016 não vai deixar saudades. 2017 já tá chegando e parte de uma base tão baixa de expectativa que, se nos surpreender positivamente mesmo que um cadinho, já será mais memorável que seu antecessor. O novo ano já vai começar com a chegada do meu sobrinho (e afilhado) Samuel. Que seja um prenúncio de boas novas!

Aos meus amigos e leitores, desejo, do fundo do meu coração, um excelente Ano Novo, repleto de prosperidade e boas energias! A gente se vê em 2017. Bem vivos, por favor!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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