sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Jantar Secreto Está Servido







Essa semana, quando terminei o epílogo do novo livro do Raphael Montes, fiquei um tempo ali, parado na 360ª página, estupefato. Na verdade, estava tentando me acalmar da taquicardia e apneia provocada pela ansiedade, surpresa e horror.

Fazia três dias que estava lendo seu Jantar Secreto, que me acompanhava no caminho de ida e volta do trabalho e varando a madrugada, deitado na cama. Geralmente leio dois ou três livros ao mesmo tempo. Mas para este, especificamente, precisei de dedicação exclusiva.

Você certamente já ouviu falar deste autor... Raphael Montes é um jovem de 26 anos que é um sucesso literário. Autor de outros três livros, ele usa e abusa do sadismo, terror psicológico, humor negro e violência como ninguém. Seu primeiro livro, Suicidas, revelava os mistérios e o lado obscuro de nove adolescentes que tiraram a própria vida em um porão. Dias Perfeitos (que já foi traduzido para mais de 20 países) é um road-movie sufocante, que conta uma história de amor e obsessão através dos olhos de um psicopata. Já O Vilarejo é um romance fix-up com uma aura gótica, com contos horripilantes sobre uma localidade isolada pela neve e fome na II Guerra, explorando os pecados capitais que provocam a degradação do povoado amaldiçoado. 

O polêmico quarto livro, Jantar Secreto, que saiu pela Companhia das Letras, conta a história de um grupo de amigos que saem de uma pequena cidade paranaense para dividir o aluguel em um apartamento em Copacabana e cursar suas faculdades de Administração, Medicina, Gastronomia e Ciências da Computação. Por causa de uma enrascada (sem spoilers), eles entram em uma crise financeira e encontram uma forma de conseguir ganhar dinheiro promovendo jantares secretos (muito comuns hoje em dia) para pessoas influentes e da alta sociedade. Só que a aventura é um tanto quanto exótica: nos jantares, são servidos carne humana. E sim, há uma fila de espera para se participar dessa folia gastronômica. 

Os rapazes tentam escapar, mas o caminho da saída fica cada vez mais distante por causa da ambição, desconfiança e a paranoia que rondam as personagens. E o leitor se torna o cúmplice de toda a barbárie, tal qual Hitchcock fazia, tecendo uma poderosa teia, onde não conseguimos mais nos desprender.

Digressionando um pouco, uns anos atrás, eu me senti sufocado com um filme chamado Cama de Gato, estrelado pelo ator Caio Blat e que mostrava os dilemas da juventude paulistana da década de 1990. No filme, o personagem de Caio e mais dois amigos matam uma adolescente após um estupro coletivo e tentam encobrir o crime ocultando o corpo da jovem. Quanto mais eles tentavam resolver, mais se complicavam com as situações absurdas.

O filme, que teve um baixíssimo orçamento, surpreendia pelo fato de que o ser humano seria capaz das maiores atrocidades. Coisas inimagináveis. O roteiro saiu da cabeça de um diretor insano? Não. Saiu da cabeça de jovens estudantes universitários, de classe média alta. 

Raphael Montes utiliza contexto semelhante. Apesar de Jantar Secreto usar a questão do sofrimento animal que desemboca no vegetarianismo como uma forma alegórica, o livro revela os limites de uma juventude sem rumo, que vive sob constante pressão psicológica e a angústia em duelar com os próprios limites da ambição.

A trama, que tem um final surpreendente (assim como os demais livros), esmiúça toda a maldade e a loucura que existe dentro da mente humana e explora elementos inovadores na narrativa (como um capítulo inteiro narrado através de uma conversa pelo WhatsApp), receitas e documentos que ajudam o leitor a penetrar ainda mais no bizarro ambiente em que os jovens vivem: conseguimos ouvir a trilha sonora, o tilintar dos talheres, sentir o cheiro dos temperos e da putrefação dos cômodos e até enxergamos o suor escorrer, incitado pelo pavor.

O jantar secreto está prestes a acontecer. Servido?
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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