sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Pequeno Príncipe Matheus





Há uma semana, eu perdia meu amiguinho Matheus. Um dia antes, enquanto conversava sobre ele, senti uma angústia muito grande e uma vontade de visitá-lo no hospital. Matheus estava internado no Hemorio e realizando um tratamento contra a leucemia fazia uns três anos. 

A primeira vez que o conheci foi na realização de uma matéria para o Globo Comunidade, que estava focando na importância do trabalho voluntário. Meu amigo Pedro Figueiredo estava fazendo sua estreia no programa e eu estava responsável por encontrar um personagem bacana para ilustrar a matéria.

Quando vi aquele garotinho de olhos brilhantes vestido com uma capa do Batman no meio das outras crianças, fiquei encantado. Procurei a mamãe dele, a Christina, para a autorização das imagens e indiquei ao Pedro, que também ficou maravilhado com a inteligência daquele pequeno molequinho que tinha certeza de que era um super-herói.
- Não posso demorar aqui. Tenho que salvar muitas pessoas. – ele disse.
Aquelas palavras, que serviram como cartão de visitas enigmático para a primeira apresentação, nunca saíram da minha cabeça. Inicialmente, achei engraçado. A figura, de máscara e capa tremulante, só faltava alçar vôo a qualquer momento. Depois, com o tempo, comecei a compreender o que ele quis dizer. 

Não deu tempo de dar o último abraço. Não deu tempo de ouvir a sua última gargalhada. Não deu tempo de encarar o seu olhar acalentador. Não deu tempo de apertar suas bochechas e se emocionar com seu jeitinho tímido. Não deu tempo.

Em uma das vezes que o visitei, já muito debilitado, me ofereceu pizza enquanto jogávamos Uno. Aquela pequena mãozinha que me afagava, me acalmava muito mais do que podia imaginar. Não era um simples carinho, mas sim, um alento à alma. Algo inexplicável e subjetivo, eu sei, mas que incrivelmente me ligava à tomada e fazia minha bateria carregar 100% novamente.

- Come um pedaço de pizza, tio. Você está com uma cara de cansado. Trabalhou demais hoje?
- Sim, Matheus... Vim te ver rapidinho só pra te dar um abraço...
- Pode me abraçar, mas não muito forte, tio... Cuidado com meu cateter.
- Eu vi seu vídeo dando entrevista... Você está virando artista, hein...
- Eu estou famoso. Dei muitos autógrafos essa semana. Cansei minha beleza...
- Você ainda vai dar muitos autógrafos quando crescer, Matheus...
- Não sei, tio. Não sei. Mas eu queria poder crescer.

Hoje, com a sua partida, só tenho que agradecer por todos os encontros que tive com ele. Ele não conseguiu crescer, mas certamente fez muitos adultos florescerem ao seu redor.

Matheus encerrou sua pequena missão aqui no nosso pequeno planeta azul. Mas no período em que estivemos lado a lado, me ensinou que mesmo com todas as adversidades, nunca deveria esmorecer. E o mais impressionante foi que ele me ensinou somente com seus gestos simples: o olhar, o cuidado, o perdão. Seu jeitinho tagarela e espontâneo mobilizou tanta gente que eu só posso chegar à conclusão de que a sua missão era exatamente essa: construir uma rede de amor e solidariedade.

Matheus tinha encontrado um doador compatível para a realização do transplante de medula óssea depois de incessantes campanhas. Depois, por causa de uma complicação, as sessões de quimioterapia não estavam mais surtindo efeito. A última saída seria conseguir um medicamento importado que ainda não possuía registro no Brasil para três meses de tratamento. Em menos de quinze dias, a vaquinha que preparamos pela internet chegou ao objetivo final. O medicamento foi encomendado, ficou preso na alfândega, movemos céu e terra para chegar a tempo...

Na primeira tentativa, o medicamento fez o efeito contrário. E a luta pela sobrevivência se tornou diária. Cada minuto do relógio era uma vitória.

E aí é que pude enxergar o lindo momento da vida. Sabendo que a areia da ampulheta estava quase chegando ao fim, todas as respostas foram dadas nos momentos certos.

Em seis anos de vida, tinha a experiência e a resiliência de um centenário, a força de um leão, a atitude de um rockstar. Matheus foi um verdadeiro anjo. Por trás de sua capa do Batman haviam asas invisíveis. Como no livro de Éxuperry, nosso pequeno príncipe, depois de colocar em prática todos os sentimentos mais nobres e das emoções que abrigamos dentro de nós mesmos, voltou para o aconchego do lar. E de lá, independentemente de sua crença, continuará a nos acalentar. 
- Não posso demorar aqui. Tenho que salvar muitas pessoas.
Sim, eu agora entendi o enigma, Matheus.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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4 comentários:

Marcia Marino disse...

Marcos, nosso pequeno Matheus nos deu a chance de crescermos espiritualmente!!! Ele cresceu com todos nós!!! Parabéns pelo texto e pela linda homenagem!!!! ❤❤❤

FCabral disse...

Que homenagem linda Marcos!!! Pode ter certeza que ele irá salvar muitas pessoas. Parabéns pelo texto!

Katia Campos De Menezes disse...

Belíssimo texto!❤

Unknown disse...

Muito lindo esse texto,parabens Marcos.