quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Viadagem Tem Limite?





Acabei de ler no Facebook o comentário de um senhor com quem tenho certo convívio: 
“VIADAGEM TEM LIMITE”
Assim mesmo, em caps lock. O assunto em questão era o crescimento na venda de lingeries masculinas, fruto de uma matéria da Rede TV. Minha primeira reação foi pensar no quanto essa pessoa ainda tem que aprender da vida. A segunda foi o bendito botão do Facebook “Deixar de Seguir”. A terceira, vir até aqui para escrever a respeito.

Não sou um adepto de lingeries masculinas; poderia ser e isso seria um problema meu e do meu parceiro. Mas sou adepto das liberdades individuais, contanto que não firam a liberdade do outro. Seja homem ou mulher, alguém usar calcinha, cueca, cinta-liga ou não usar nada, REALMENTE diz respeito a um terceiro que não tem absolutamente nada a ver com ele? Isso realmente ofende alguém que sequer vai interagir sexualmente com ele? Ainda assim, mesmo que ofenda, não é um direito cada um usar o que bem entende, mesmo que seu parceiro discorde (e passar para um parceiro que aceite e goste?).

Agora, definitivamente, não há comparação entre os limites de alguém usar algo que lhe apraz (ainda mais na intimidade) do que alguém que destila ódio e intolerância nas redes sociais. O que ainda me choca é ver pessoas com pensamentos similares a esses nos meus círculos sociais. Não raro, ainda me deparo com colegas de trabalho ou de outras atividades colocando frases ofensivas em suas redes – muitos deles, pessoas aparentemente doces e educadas no trato pessoal. Imediatamente, me remetem àquele desenho do Pateta, quando entrava no carro e deixava de ser o personagem mais carismático e bobo da Disney para se transformar em um ser completamente odioso.

A má notícia para esse pessoal é que a “viadagem” não precisa ter limites: ela é garantia constitucional de qualquer cidadão brasileiro. Não gostou, se muda pro Iêmen, Uganda ou Papua Nova Guiné. Agora, para discriminação já existe, de acordo com o Código Civil de nosso país. Infelizmente, sabemos que os instrumentos punitivos não são tão eficazes; nosso Sistema não educa, tampouco regenera. Ainda assim, há ao lado de todo cidadão os direitos previstos na Lei.

Intolerância também há de se ter limites, ainda mais para aqueles que se dizem cristãos. Cristo, em momento algum, disse que “viadagem tem limite”. Ele apenas disse “amai-vos uns aos outros como a ti mesmo”, o que é bem diferente. É triste ver que falta nessas pessoas, exatamente, o que Cristo ensinou.

Ainda assim, vou buscar responder: caríssimo, não, viadagem não tem limite. Não existe mais ou menos viado; viado é viado (aliás, nota aos leitores: viado geralmente só gosta de ser chamado de viado por outro viado; de resto, é somente ofensa gratuita). Parecer hetero, não dar pinta, pode até deixar alguns gays felizes, mas isso definitivamente não é o objetivo de todos. E nem tem que ser. Não é uma obrigação... Até porque quantos heteros também não dão pinta, são afeminados e nem por isso gostam de homens? Quantos não adoram vestir-se de mulher em Carnavais com o pretexto de que é apenas uma fantasia? E quantos desses que propagam mais ódio e intolerância não são aqueles que fazem as coisas “na encolha” e são considerados exemplos de chefes de família por suas esposas?

Tenho, sinceramente, pena. Pena porque são tantos anos de vida perdidos, se tendo em mãos a possibilidade de viver com mais amor, empatia e fraternidade. São como Patetas ao volante, mas também, no fundo, são patetas (assim mesmo, com P minúsculo) que ainda precisam aprender muita coisa...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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2 comentários:

Unknown disse...

PH adorei.simplesmente adorei.
Não gosto muito do termo viado afinal são duas pernas e não quatro patas.
Quando a mulher.usa é bonito sexy o homem não.
O amor entre dois Homens vai muito além do sexo não é mesmo?
E o Ser Humano precisa caminhar muitoooo ainda para evoluir.
Parabéns PH

Caio disse...

"Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" e "ama ao teu próximo como a ti mesmo", essas as frases de Cristo. Aquela que você apôs no texto foi uma simbiose das duas. De qualquer forma, quanto à intolerância, vc tem toda a razão. Inclusive eu creio que, na maioria das vezes, a intolerância é simplesmente uma forma de esconder uma verdade íntima que se identifica com a verdade do outro, mas que se teima em negar por covardia e medo... Abraço e boa sorte!