quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A Carne de Gaivota de Raphael Montes




“Um sujeito estava andando pela rua quando se deparou com um restaurante que vendia carne de gaivota. Pediu a carne, comeu, foi para casa e se matou. Por quê?”
Tudo começou com esse enigma. Quer dizer, o início na verdade mesmo ocorre lá em 2010, quando Dante, Miguel e Hilda vieram para o Rio de Janeiro procurar uma nova morada para eles. Tirando Hilda, mãe de Dante, que não se mudaria para a Cidade Maravilhosa, permanecendo em Pingo D’água, cidade do interior do Paraná. Em seu lugar, mais dois amigos do filho fecharam o grupo que ocupariam a morada escolhida. Uma vez vivendo em Copacabana e matriculados em suas respectivas faculdades, os amigos Dante, Leitão, Hugo e Miguel iniciavam o que parecia ser o início do resto da vida de cada um… E era mesmo.

Quatro anos depois, formados e em busca do que tanto queriam, dinheiro e reconhecimento profissional, a realidade nada favorável do país começa a se revelar uma grande ameaça aos planos traçados na época da mudança. E é com essas pitadas de realismo atual que Raphael Montes vai nos apresentando seus novos personagens, que são tão comuns que você chega a pensar duas vezes em iniciar um papo com um estranho em uma fila de banco. Afinal, nunca se sabe os esqueletos no armário que esse “desconhecido” pode ter. 

Dante, por exemplo, é um jovem comum que se formou em administração e tudo o que quer ser é executivo de um grande empresa de nome, mas no momento trabalha em uma livraria. Miguel, amigo de infância, faz estágio em hospital público e até tem uma namorada, mas que quase não consegue ver por conta dos longos turnos e pouco horário disponível para ter uma vida social. Hugo se formou em gastronomia e tenta se estabelecer no meio culinário, sendo que seu ego não costuma cativar muito as pessoas. Leitão, o craque da informática no grupo, largou a faculdade logo no início e vive de pequenos bicos e golpes pela internet.

Em um dia eles se encontram sem grana e com uma dívida gigantesca no valor de quase trinta mil reais e não fazem ideia de como conseguir esse dinheiro em poucos dias. Hugo sugere oferecer Jantares Secretos para desconhecidos na internet. É moda fora do país e a ideia vem se popularizando, argumenta o chef de cozinha. Depois da ideia aceita, Leitão fica responsável pelo site, Dante e Miguel ajudam no necessário… E assim as coisas começam acontecer. Mas não como eles imaginam...

Jantar Secreto, quarto livro de Raphael Montes, apresenta uma trama com características dignas das boas séries de terror e suspense - e com uma boa dose de humor no meio -, basicamente um plot digno de American Horror Story. No enredo existe suspense, ação e sangue. As páginas do livro são literalmente vermelhas de tanto que o líquido escorre por elas. É muita carne e morte misturada em seu interior. Mas apesar de tudo isso, no fim, vale completamente a pena. 

Se você ainda não leu nada do autor, por favor, se dê esse presente e leia Dias Perfeitos, Suicidas e O Vilarejo. Caso já tenha tido algum contato com o universo do carioca, tenha medo, mas leia mesmo assim… Pode me agradecer depois. 

Ah, ficar sem querer comer carne por um tempo é só um “pequeno” efeito colateral… Ou sentir vontade de comer em excesso também.

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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