segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Chuva e a Árvore Sobre o Barranco Além do Porão





Eu morei durante quase toda a minha vida na casa dos meus pais, no interior do Rio. A cidade, que eu chamo carinhosamente hoje de Smallville, sempre foi um pouco a minha prisão, o lugar de onde eu queria sair para me libertar e poder ser verdadeiramente eu. Eu sonhava com o dia em que desbravaria o mundo, que conheceria lugares e pessoas diferentes daqueles da minha rotina. E, se hoje eu tenho um pouquinho de dificuldade em aceitar a cidade, as pessoas, isso não é culpa deles, e sim minha, que criei uma certa barreira com “voltar para casa”. 

Na semana passada, logo depois do Ano Novo, fui visitar meus pais. Eu estava devendo a visita, que posterguei o quanto pude, mas a saudade apertou, queria carinho de pai, mãe e sobrinhos e acabei me deixando voltar para a terrinha, para um fim de semana de descanso, que é o que eu mais faço por lá. 

O calor insuportável no Rio, os dias de folga pós-reveillon, a praia, a cerveja (em excesso), as comidas que não me eram habituais, o retorno ao trabalho. E assim, em plena sexta-feira, dia para o qual tinha comprado a passagem para a viagem (de 2 horinhas, mas uma viagem), eu não estava me sentindo muito bem. Um enjôo, um mal estar e eu cogitei seriamente remarcar. Mas na hora do almoço tomei um remédio para o fígado e acabei embarcando para a casa dos meus pais.

O calor, que não dava trégua no Rio, também estava firme e forte em Smallville. Mas, bastou eu colocar os pés em casa, que uma chuva torrencial desabou. Choveu durante horas e ali com meus pais e as crianças, fiquei sentado na varanda admirando a chuva cair do céu, o cheiro de terra molhada, ouvindo os barulhos característicos e viajando em lembranças e recordações.

Eu cresci na casa em que meu pais moram até hoje. Apesar de algumas melhorias, a casa continua basicamente a mesma, hoje bem maior para os meus pais do que era em minha infância, quando meu irmão e eu ainda morávamos lá. Mas o lugar para onde aquela chuva que caia me transportou, hoje já não existe mais. 

Durante muito tempo, minha casa teve uma espécie de porão que, nada mais era que um quarto de entulhos, localizado do lado de fora, mais precisamente na fundação da casa da minha tia. Aquelas coisas de famílias do interior, que ocupam um grande terreno com diversas casas ao mesmo tempo próximas e distantes. E dentro desse “porão” havia uma pequena trilha que levava para debaixo de uma árvore, em um barranco que dava para a casa vizinha. E eu adorava ficar sentado ali, meio que escondido, com os meus sonhos e pensamentos. E agora, ao escrever esse texto me pergunto se minha mãe sabia por onde eu andava enquanto estava lá, contemplando o nada, sonhando acordado, no meu mundo da lua particular.

O legal é que, apesar de ser em uma área aberta, esse barranco colado no porão, era protegido da chuva graças à arvore que se mantinha firme, provavelmente ela a responsável pelo barranco nunca ter caído. E em dias como aquela sexta, com a chuva desabando do céu, eu adorava ficar sob a árvore, sentindo o cheiro da terra subindo e pensando da vida. O máximo que me acontecia era ser tocado por uma gotícula ou outra que caía das folhas das árvores.

E sozinho, depois que meus pais foram dormir e que a chuva cessou, mas com essas lembranças na mente, eu chorei um pouquinho. Porque se hoje eu sou um cara bem resolvido, dono do meu nariz e financeiramente independente, tudo isso é fruto daquele menino bobo que gostava de ficar sentado debaixo da árvore vendo a chuva cair e imaginando o seu futuro. Aquele menino cresceu, correu atrás dos seus sonhos e virou esse cara aqui atrás do computador, que digita essas palavras e que você lê, aleatoriamente hoje ou toda segunda-feira.

Curioso, ainda no escuro, caminhei até o porão de casa. Aquele espaço de bagunça foi revitalizado pelo meu pai e hoje ele é apenas um quarto, um porão de verdade, um quadrado de concreto, sem janelas ou fugas para o barranco que, descobri depois, não existe mais, assim como a árvore que, tantas vezes, protegeu os meus sonhos da chuva. E doeu um pouquinho pensar que, apesar de querermos tanto, a vida segue o seu rumo, mudando também as recordações que apenas estavam adormecidas, reembalando-as para novas possibilidades.

Mas na cabeça desse homem menino que agora digita essas palavras, aquele refúgio ainda existe. E eu quase posso sentir o cheiro da terra molhada e uma ou outra gota que insistem em cair no meu rosto, que se confundem com algumas lágrimas teimosas que insistem em cair. E eu sorrio. E sei que pelo menos alguns dos meus sonhos se realizaram...
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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