sábado, 7 de janeiro de 2017

A Verdade Existe?





Nessa semana comecei a terceira temporada da série The Affair, criada por Sarah Treem e Hagai Levi. Já acompanho esse caso há muito tempo e ainda me encanto com a dinâmica desafiadora desse projeto televisivo: The Affair questiona o conceito de Verdade, investigando a distância que existe entre intenção e gesto, e  o ruído na mensagem que desestabiliza o diálogo, de uma maneira que mentira, fantasia e realidade tornam-se apenas uma questão de ponto de vista.

Partindo dessa problemática da veracidade difusa, do fato questionável, me lembrei de um conto que escrevi e que fala justamente sobre tudo isso. Espero que gostem. Chama-se, apenas, Uma Verdade. Eis:

Uma Verdade

Eu falei que a verdade era um brinquedo. Um brinquedo daqueles articulados, móveis, capazes de tomar múltiplas formas e variar de sentido conforme a perspectiva. Se nas franjas da mentira você já vai logo suando as mãos e tremulando a voz, descobrirão tudo! Você não sabe brincar? 

Pense no itinerário e no tempo que terá para elaborar sua farsa. Deixemos aqui debaixo do tapete o fato de você já ter estudado madrugadas a fio todo o seu roteiro de embromação. Agora, na rua, você vai num pé ante pé cauteloso, pois a culpa calça muito mal e você pode ser notado apenas nesta tentativa de arejar a cabeça antes do grande dia. 

No jantar de ontem você vacilou. E as alunas não te mandam recadinhos de amor?, provocaram seus colegas de trabalho. Você então escamoteou com aquela parábola insensata da formiga-rainha. Que deslize! E quando comentaram sobre o desaparecimento da garota? Era mesmo necessário contar aquela piada sobre doenças terminais e rir-se por conta? Amanhã na delegacia não cometa as mesmas indiscrições, pois o chão será bem mais escorregadio. 

Faça o seguinte: mantenha no rosto a máscara da placidez e da delicadeza que te personalizam, e faça as mais vagas e discretas observações. A sutileza diante da polêmica é uma grande sofisticação. Afinal, você não tem tesoura para cortar nem mesmo suas menores lembranças. Seria perfeito descosturar o já cosido, mas você urdiu com manchas de sangue sua memória, seu passado. Negue a matéria líquida de seu crime e reinvente as recordações. A verdade é uma elaborada invenção. Crie a sua. 

Fuja da acusação. Você não matou aquela garota porque quis. A polícia quer saber e amanhã vão te fazer confessar. Geralmente eles conseguem a maldita declaração, mas não será o seu caso. Um homicídio, sendo de amor, ganha positivamente a opinião pública. Tenha fé! 

Mas, neste momento, siga apenas, e vá noite adentro admirando sua alteridade e capacidade de domar honestidade, lisura e outros frágeis passatempos. Se muito brutal, mande às favas os fatos, as leis. A verdade, meu bem, é você quem faz.
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P.S.: Esdras Bailone volta semana que vem cheio de versões surpreendentes da realidade (coisas que fazem seu texto ser especial). Bom retorno, Esdras!

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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