segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

As Cartas da Cigana e as Perspectivas Para Um Novo Ciclo





Era véspera de Ano Novo. Eu estava com alguns amigos em uma festa na cobertura de um prédio, em plena Praça Mauá, no centro do Rio. A festa, de música brasileira, que eu já tanto gostei, estava chata. Era uma gente estranha, eu estava cansado e, para ajudar, eu bebia e o álcool não batia. E, algumas vezes, ficar alegrinho é necessário. Foi nesse cenário, enquanto eu falava com alguns amigos, que ela surgiu.

A equipe da festa, já no clima de Ano Novo, havia contratado uma cigana que, circulando entre as pessoas, se oferecia para "ler a nossa sorte". Segundo ela, era uma leitura superficial, em que devíamos tirar duas cartas de seu baralho, uma para o nosso karma em 2017, outra para o nosso dharma. E eu, que estava achando 2016 um dos piores anos da minha vida (sério, tenho problemas com anos pares), não pensei duas vezes quando ela me abordou. Afinal, pior que está não dá pra ficar.

Era muita gente à nossa volta, música alta, pouca luz, mas sei que naqueles poucos minutos ali, tirando as duas cartas e ouvindo suas análises, aquela cigana teve a minha atenção total. Eu, que não acredito em esoterismo, mas estou longe de duvidar, achei curioso o processo. Ela me disse aleatoriedades e clichês, como os que estamos cansados de ler nos horóscopos dos jornais. Mas foi certeira quando começou a falar de especificidades da minha vida, principalmente sobre o último mês do ano. E não preciso entrar em detalhes do que foi dito, mas, em resumo, ela disse que 2017 será duro para mim; mas que, com o trabalho envolvido, colherei alguns frutos. Oremos.

O que acho interessante e ainda não tinha escrito a respeito, é como somos sugestionáveis. Aqueles poucos momentos ao lado da cigana, mesmo eu sendo um descrente nato, me encheram de esperança. O clima de ano novo, a perspectiva de que as porradas já tinham vindo todas juntas, a minha mudança de vida total logo no início de dezembro. Ou seja, não precisava de muito para que eu me alegrasse com qualquer perspectiva de melhora. E só essa ideia já me deu um gás, uma energia boa, uma vontade absurda de que as coisas realmente se tornem melhores.

Agora, analisando em retrospecto, consigo entender com clareza o que a cigana me disse (e que poderia ter sido dito por um terapeuta, ou por um amigo bem intencionado) e ver que sim, ela tinha razão. A mudança que procuramos está em nós. Nossa, que clichê, não é mesmo? Mas, putz, tão real.

Outro dia, conversando com o PH, nosso colunista das quartas-feiras, sobre alguns sentimentos ruins que tenho sufocado, chegamos à mesma conclusão: a nossa natureza é, em geral, mesquinha. E temos de lutar para sermos bons, para fazer o "certo", para deixar o egoísmo e as nossas "verdades" de lado e seguirmos com a vida. Se as pessoas estão tomando atitudes que você estranha e até mesmo questiona, isso não é problema nosso, e sim delas, que tomaram a decisão de, talvez, serem desonestas com os outros e, acima de tudo, consigo mesmas. Nessa equação, o meu papel é o de seguir a minha vida, deixando o barco correr. Uma hora a vida cobra a conta.

Esse ano de 2017 será duro? Ah, tenho certeza que será. As mudanças me pegaram de jeito em 2016, mas eu não vou reclamar delas. Como a cigana bem pontuou para mim, eu estava me tornando alguém que eu não estava gostando e não estava conseguindo sair por mim mesmo dessa situação. Minha alegria estava sendo sugada por um buraco negro de confusão alheia, de mentirinhas embaladas de boas intenções e, acima de todo, de comodismo de minha parte. Mas com a sacudida que a vida me deu, era realmente a hora de botar a casa no lugar e de encontrar novamente o Leandro que eu estava deixando de ser sem nem mesmo perceber.

2017 já está aí e eu tenho realmente a impressão de que ele não será fácil. Mas, convenhamos, a vida nunca é fácil. O que podemos fazer é a nossa parte, o nosso plantio, e esperar pela colheita que, dependendo de nossas ações, pode ser recompensadora.

Palavras da cigana. E eu, contrariando as expectativas, tô botando fé. Na vida. E em mim mesmo.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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