segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Como é Difícil Ser Adolescente Hoje Em Dia...





Eu almoço todos os dias com dois colegas de trabalho que se transformaram em amigos de longa data. Já se vão 14 anos desde que nos conhecemos e, com esse tempo, desenvolvemos uma relação bem mais sólida do que se pode imaginar que pessoas que apenas trabalham poderiam ter. E, por termos idades próximas e sermos da mesma geração (algo raro na nossa empresa, que tem uma grande maioria de pessoas mais velhas), as afinidades são muitas.

Dias atrás, depois de fazermos uma gordice no almoço e irmos comer num rodízio de pizzas (sim, somos desses), entramos em uma conversa sobre as novas gerações e em como os adolescente de hoje em dia não conseguem dar valor às coisas que tem. Graças à tecnologia, com praticamente o mundo ao alcance de poucos cliques, essa geração não consegue valorizar verdadeiramente as ferramentas disponíveis, bem diferentes de nós, nascidos na década de 80. E, apenas durante o tempo de uma rápida viagem de metrô , conseguimos ser saudosistas e nos lembrar de várias atividades que marcaram toda uma geração e que, graças ao mundo moderno, caíram em desuso nos dias atuais.

Com serviços de música e vídeo por streaming ao alcance de apenas um clique, como valorizar o trabalho que já se teve um dia para apreciar uma canção ou assistir a um filme? Lembramos bem de como era ficar de prontidão, com o dedo no REC do radio gravador, esperando por aquela música específicas que queríamos gravar na fita cassete. E, de brinde, ainda ganhávamos, na maioria das vezes, uma chamada da rádio no meio da canção, marcando aquele esforço hercúleo para gravar a dita cuja. E você pode estar se perguntando: rádio gravador? Pois é, meus caros, isso já existiu e era um verdadeiro símbolo de status. Assim como o walkman, que tocava fitas cassete e que, muito tempo depois, foi substituído pelo discman, um reprodutor portátil de CDs que, em sua época, era o ápice da modernidade.

E se hoje a Netflix está aí com milhares de filmes e séries à sua disposição para os períodos de ócio, éramos do tempo em que um programa aguardado era o de passar na locadora de vídeo e nos perdermos nas prateleiras de filmes para assistir no fim de semana no conforto do nosso lar, na hora que quiséssemos, com a ajuda dos nossos vídeo cassetes. Eu particularmente me lembro de como era chique ter um vídeo cassete em casa, assim que o aparelho foi lançado. Meu pai, ostentador que só, comprou um vídeo cassete que durante um bom tempo foi pouquíssimo usado, porque não haviam locadoras de vídeo na minha cidade e, para poder aproveitar esse must da tecnologia, tínhamos de ir até a cidade vizinha para locar as fitas VHS. 

Fora que essa geração da selfie e de postagens instantâneas no Instagram nunca saberá o que era tirar uma foto e não saber o resultado da sua pose imediatamente. As câmeras analógicas eram um produto de poucos, que precisavam ser abastecidas com filmes comprados na farmácia ou lojas especializadas para que fotos fossem tiradas. E, sem visores digitais, era necessário esperar tirar todas as 12, 24 ou 36 poses do rolo de filme para só então enviá-los para serem revelados e termos acesso ao resultado dos nossos sorrisos nas fotos "reveladas" em papel colorido e brilhante.

Para os jovens estudantes então, passar longas horas na biblioteca da cidade fazendo pesquisas para trabalhos escolares era uma rotina comum. Entre enciclopédias e livros didáticos, copiávamos (à mão, é claro) os assuntos selecionados, para fazermos trabalhos lindos que eram entregues com capas trabalhadas com letreiros feitos de lápis de cor e canetinha com letras estilosas para valorizar o esforço e os garranchos internos.

Até as nossas punhetas eram mais sofridas, Brasil! Enquanto hoje qualquer um pode entrar em sites de conteúdo erótico, clicando apenas em um botão que pergunta se você tem mais de 18 anos e se acabar no prazer solitário, nos anos 90 e início de 2000 era uma verdadeira saga conseguir combustível para se "distrair". Revistas e fitas VHS de conteúdo erótico e pornográfico eram propriedade apenas dos adultos, que as escondiam muito bem. Conseguir um exemplar envolvia ter contatos bem relacionados, desembolsar algum dinheiro ou então ter muita cara de pau e contar com a boa vontade de um jornaleiro ou atendente de vídeo locadora. Punhetas valorizadas, uma geração inteira sabe o que isso significa. 

Por isso, é fácil vermos tantos adolescentes entediados e sem saber o que querem da vida. Não existe uma valorização do que se tem e da forma que se consegue isso. Porque nós, expoentes da Geração X, somos saudosistas sim e temos o direito de alimentar uma certa nostalgia. Fora que agora entendemos bem o quão certeira é a expressão: ah, no meu tempo era assim...

Pois é, depois da nossa conversa, não nos restou nenhuma dúvida. Realmente é muito difícil ser adolescente hoje em dia...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcela Fluck disse...

Leandro, viajei na sua postagem...
A primeira coisa que lembrei foi fica ouvindo Good Times 98, com a fita no gravador esperando tocar Baby Can I Hold You da Tracy Chapmam, era apaixonada por um menino da escola e ouvia essa música, sem saber do que se tratava a letra, lembrava dele e chorava muito....kkk

Lembrei das idas à locadora, das promoções tipo, se levar 3 entrega só na terça. Lembrei até que paquerava o filho do dono da locadora..rss

Até hoje, quando fazem menção a Dirty Dancing, lembro com muito saudosismo desse ter sido o primeiro filme que vi no vídeo cassete que ganhei quando fiz 15 anos. Foi um verdadeiro evento, convite às amigas da escola e da vizinhança e muita pipoca com guaraná (era moda por causa da música do comercial).

Na hora da sessão, quantos suspiros, gritos histéricos, quantos sonhos com o príncipe encantado..

Parece que tudo aconteceu há um século, tanta coisa mudou! Mas trago no coração a certeza de ter vivido uma época muito mágica e que me marcou muito.

Obrigada por me fazer lembras tantas coisas gostosas em uma segunda pela manhã!!!

Marcela Fluck disse...

*ficar ouvindo