segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Contradições





Um beijo longo, intenso, voraz. Faminto, podia-se dizer! As pessoas que circulavam em volta ficavam sem ar com a cena.  Que paixão! - era o que pensavam todos.

Interromperam o beijo e se olharam nos olhos. Felipe e seus olhos azuis profundos, enigmáticos. Com olhos negros hipnotizantes, Bruno.

Felipe lembrava-se do motivo de estarem juntos. 

Se conheceram numa festa, ficaram, trocaram telefones, começaram a namorar. Sua família adorava o jeito de Bruno: brincalhão, extrovertido, simpático. Ele conquistava tudo e todos, tinha um magnetismo pessoal admirável. Douglas, seu melhor amigo, não parava de dizer como ele era feliz por ter um cara como Bruno ao seu lado, como o invejava. 

Mas Felipe sentia asco. Não aguentava mais aquele cara que um dia o havia feito suspirar. Inventava mentiras para não se verem e a perspectiva de se encontrarem o desanimava. Mas continuava com ele. Não conseguia dizer:

Chega, acabou! 

Tinha pena dele, medo da reação. E aqueles beijos, o sexo, nada mais lhe interessava. Queria acabar logo com aquilo, fazia de tudo para que ele terminasse, mas era em vão. Ele continuava o mesmo Bruno de sempre, apaixonado. Suas traições eram constantes. Queria ser pego, que Bruno descobrisse seus casos e terminasse com ele, mas isso nunca acontecia. Felipe se sentia mal, mas tinha de fazer isso. Chegou ao ponto de traí-lo com o melhor amigo de Bruno, Otávio, na esperança de que ele contasse o ocorrido, mas sem resultados. Conseguiu apenas que Otávio ficasse no seu pé, implorando que repetissem a dose. O que fazer? 

Nesse momento, Bruno começou novamente a beijá-lo.

Bruno se encontrava num beco sem saída.  Enquanto beijava Felipe, pensava em Douglas. Mas estava preso a esse relacionamento, não queria magoá-lo, tinha certeza que Felipe o amava.

Até pensara em terminar algumas vezes, mas não fora capaz. Felipe ficaria arrasado, tinha certeza. Talvez até pensasse em acabar com a própria vida. O amor doentio de um Felipe desequilibrado, acreditava Bruno.

E achava que ele começava a desconfiar. Estava estranho ultimamente. Perdia-se em seus pensamentos e, muitas vezes, respondia com monossílabos às suas perguntas. Definitivamente, não podia terminar tudo assim, de uma hora pra outra. 

Mas estava apaixonado por outro, pelo melhor amigo de Felipe. Era com Douglas que ele se realizava. Com Felipe, o sexo era automático; com Douglas, prazeroso. Mas não podia jogar tudo pro alto. Tinha de manter aquela farsa.  Até quando? Não sabia.

Beijaram-se mais um vez. 

Felipe pensando em como terminar com Bruno, o namorado que o enojava, que já não lhe despertava nenhum desejo.

Bruno pensando no beijo de Douglas.
“Why don’t we break up ?
There’s nothing left to say
I’ve got my eyes shut,
Praying they won’t stray
And we’re not sexed up
That’s what makes
The difference today
I hope you blow away…”
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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