sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Controle de Solo Para Major Tom





Nesta semana, comemoramos a Bowie-Week. Se o astro David Bowie estivesse vivo, completaria 70 anos. E sua morte vai sempre estar correlacionada à comemoração, já que dois dias depois do aniversário, ele partiu para seu planeta de origem.

Sempre achei que Bowie era um ET que planejou sua vida no nosso planeta azul. Inclusive, ele mesmo fez o papel título no cinema do alien que se torna bilionário ao vender seus conhecimentos tecnológicos em um conglomerado de empresas no filme O Homem Que Caiu na Terra, de 1976, e que voltou aos cinemas com cópia restaurada.

Na minha humilde opinião, artisticamente David Bowie foi a figura mais relevante do século XX. Sem ele, o rock e vertentes como o glam, o rap, o funk e o eletrônico não seriam os mesmos. Bandas como o The Cure, Echo and the Bunnymen, Bauhaus, Velvet Underground, Kraftwerk, Iggy Pop, Strokes, Nirvana, Radiohead, Arcade Fire, além de artistas pop como Lady Gaga e Madonna talvez não existissem, ou seriam completamente sem graça.

Bowie teve uma representação muito grande em minha vida. Quem já me conhece, já sabe da história inusitada que me fez ficar cara a cara com meu ídolo naquele início da tarde do dia 31 de outubro de 1997, no aeroporto do Galeão, quando ele veio em minha direção para pedir uma informação. Ele ia fazer um show em Curitiba e, dois dias depois, estaria de volta para um sensacional show no RJ. Eu, um simples estagiário de jornalismo, traguei o único cigarro que fumei na vida, vindo dos lábios de Bowie. Em troca, ele roubou duas jujubas que eu estava saboreando. 

Foi através dessa história que eu me inspirei para a criação do meu primeiro livro, o Troco a Bituca Por Duas Jujubas, que lancei recentemente pela editora Autografia e já está disponível para encomenda em alguns sites e livrarias.

Lembro que exatamente há um ano, ao acordar com a notícia de sua morte, tive uma das sensações mais desconfortantes que já senti. Parei por quase meia hora olhando para o infinito que tantas vezes projetei em minha mente ouvindo Ziggy Stardust e Space Oddity e chorei sem perceber, lembrando dos seus vários heterônimos... Bowie podia ser quem quisesse ser: homem, mulher, gay, alien, velho ou criança. Na minha adolescência, queria ser Aladdin Sane... Queria ser o “homem que vendeu o mundo” ou então aquele herói, mesmo que “apenas por um dia”.


Horas antes de sua morte, estava assistindo o clipe de uma das canções do álbum Blackstar, que havia sido lançado dois dias antes. A música era Lazarus, uma referência ao personagem bíblico, ressuscitado por Jesus quatro dias após sua morte. Bowie estava em uma cama de hospital, com os olhos vendados por ataduras e botões assustadores nos locais dos olhos... As primeiras palavras ditas no clipe eram “olhe, eu estou no paraíso”. Quando terminava, o astro, andando para trás, entrava em um guarda-roupas metaforizando um caixão e dizia: “eu estarei livre. Não é assim, como eu?”.

Obviamente aquilo foi uma despedida. E planejada. Bowie se libertou de sua doença e deixou para nós uma linda e emocionante obra de arte. Ontem tive mais uma prova disso: um novo clipe me pegou de surpresa e fez com que lágrimas brotassem de meus olhos: a Columbia Records lançou um EP com canções inéditas e as últimas gravadas pelo músico britânico. Em uma dessas canções, que virou clip, No Plan, Bowie mostra referências de O Homem Que Caiu na Terra e Lazarus em pequenos televisores. Uma mensagem secreta já planejada um ano atrás. Vejam a letra:
“Aqui, não há música. Estou perdido em fluxos de som, sem planos. Onde quer que eu vá, eu estou. Todas as coisas que são minha vida, meus desejos, minhas crenças, meus humores... Aqui é o meu lugar sem um plano (...) Eu sozinho... Nada a se arrepender. Este não é lugar nenhum, mas aqui estou eu e isso não é bastante ainda.”
Pela mensagem, podemos ter a certeza de que sim, ele planejou. Viveu, deixou sua mensagem, voltou para o seu planeta, continua orbitando sossegadamente pelo espaço. E continuará enviando, de tempos em tempos alguns sinais, para nós, terrestres.
“A terra é azul e não há nada do que eu possa fazer.”
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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