quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ex Bom é Ex...





Na semana passada, escrevi um texto em que mencionava a importância que o meu primeiro namorado teve na minha vida – era seu aniversário exatamente na última quarta-feira, 18/01. Como disse, fomos imaturos em muitas coisas, erramos muito. Passaram-se mais de 15 anos e hoje em dia nos damos muito bem – tivemos a oportunidade de conversar sobre questões que havíamos guardado um a respeito do outro. E temos uma relação cordial e até divertida. Ele me ensinou muitas coisas àquela época – acima de tudo, me mostrou que eu realmente queria e poderia ser feliz com alguém do mesmo sexo ao meu lado, mesmo que não fosse ele.

Pois bem, mandei o link do texto para o rapaz. Ele me respondeu dizendo que estava muito feliz de ter tido essa importância na minha vida. E que esse havia sido o melhor presente de aniversário que ele havia ganhado. Para mim, foi uma sensação curiosa: eu nunca havia experimentado ser amigo ou ter mais contato com qualquer ex meu antes; nos reaproximamos de certa forma recentemente, inclusive por questões de trabalho – olha como o mundo dá voltas... E tem sido uma experiência boa.

Meu amigo Silvestre Mendes, que escreve aqui no Barba Feita às quintas-feiras e ultimamente tem sido um dos meus maiores conselheiros e entusiastas, certa vez escreveu sobre essa necessidade que acabamos aprendendo de obrigatoriamente desenvolver algo ruim pelo outro quando se chega ao fim. Quantas vezes não ouvimos que “ex bom é ex morto”? Realmente, fomos treinados para viver felizes para sempre; se não deu certo, a culpa é do filho da p*%a do outro.

2016 foi um ano em que acompanhei muitos términos de relacionamentos de amigos. De janeiro até o apagar das luzes de dezembro, perto do Natal, tive pessoas próximas dando um ponto final em suas relações como companheiros. Mas, e outras relações não são viáveis entre essas pessoas? Alguém que esteve ao seu lado com tanto afeto e tem seu lugar na sua trajetória, muitas das vezes com belas memórias, apenas merece agora o inferno ou a indiferença após chegarem a um fim?

Curiosamente, no meio de 2016 também fiquei amigo de dois rapazes que conheci justamente quando estavam em processo de separação. A princípio fiquei mais amigo de um; o outro viajou para fora e demorou para nos falarmos mais. Ficamos realmente próximos e nutro carinho pelos dois igualmente hoje em dia. Passei o réveillon com um deles e com amigos deles. Já fomos à praia, cinema, festa, almoçamos juntos e até participamos de um grupo de WhatsApp com diversos amigos que ambos têm em comum.

Hoje em dia vejo fotos dos dois juntos e é estranho imaginá-los como casal: por ainda viverem os primeiros meses pós-término, é flagrante como saltam mais aos olhos as diferenças do que as afinidades entre eles. E olha que costumo ouvir coisas boas quando um fala do outro. Porém, até mesmo as atitudes simples parecem uma constante afirmação involuntária do desapego.

Sim, infelizmente somos programados para imaginar que “ex bom é ex morto”. Mas ainda é tempo de aprender que o que ocupa o lugar de um amor não necessariamente é o ódio ou a repulsa. Aliás, nunca deveria ser assim. Podemos ocupar um amor com outro, mais maduro e transformado. Ou amizade (que não deixa de ser um tipo de amor). Ou ao menos a cordialidade que deveria ser inerente à nossa espécie.

Porque, na verdade, ex bom é ex bem-resolvido. E uma bela história deve ter o seu lugar guardado no museu as boas lembranças.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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