segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

La La Land e Uma Lição: Nem Sempre o Final Feliz é do Jeito Que Imaginamos





Antes de namorar, eu sempre adorei ir ao cinema sozinho. Escolhia o filme que queria ver e, se não tinha a companhia de nenhum amigo que quisesse conferir aquela história ou não tivesse disponibilidade no dia e hora que eu estava a fim, encarava de boa o programa sozinho. Se não gosto de ir para festas ou baladas sem ter nenhuma companhia, isso nunca aconteceu com cinema. Sentado na sala escura e acompanhando histórias diversas, eu era transportado para lugares imaginários e, para isso, nunca precisei de alguém do lado para curtir esse programa.

Mas veio o namoro, o casamento, os programas em conjunto e eu fui deixando esse hábito de lado. Eu tinha companhia que também gostava de cinema e foi uma coisa que fizemos muito no início do relacionamento. Mas o tempo passa, a rotina se instala e, muitas vezes, eu acabei abrindo mão de ver determinado filme que eu queria porque ele não estaria disponível. Não que ele exigisse me acompanhar no cinema, porque esse não era o caso. Eu é que me habituei a fazer o programa em conjunto e deixei de lado a minha própria individualidade nessa questão, sem nem perceber que estava fazendo isso.

Com a mudança de status, já morando novamente sozinho e tendo a minha vida toda só pra mim, me peguei curioso para assistir a La La Land e sem encontrar alguém disposto a ver o filme no dia e local que eu queria. E me lembrei de quantas vezes fui ao cinema sozinho e de como aquelas experiências tinham sido gostosas. Então, por que não? E me programei para isso, disposto a lembrar dos bons e velhos tempos. 

Apesar de detestar musicais, eu estava curioso para conferir La La Land. Li algumas críticas bastante elogiosas ao longa e me peguei em dúvida: arriscar ver um filme que todo mundo gosta e odiar? Porque tirando Moulin Rouge, que eu acho bem OK e gosto moderadamente, e Mamma Mia!, que eu adoro só por causa das músicas do Abba, não consigo me habituar com tramas inteiramente cantadas ou quando uma música invade a tela do nada, no meio de um diálogo e todo mundo começa a cantar, a dançar e a sapatear. Mas pensei: ok, não custa, né? E fui pro cinema de peito aberto (pra odiar sem culpa).

E como é bom ser surpreendido. Porque sim, eu fiquei completamente encantado por La La Land. E como essa não é uma resenha do filme (se você quiser ler algo do tipo, sugiro clicar aqui), não vou me poupar de soltar spoilers da trama e de falar, principalmente, do final do longa, que foi, inclusive, o que me motivou a escrever esse texto. Então, para não estragar a sua surpresa (se você é do tipo que não gosta de spoilers), acho melhor parar a leitura nesse ponto, ok? Ok, então vamos lá!

La La Land fala de sonhos. De como Mia, uma aspirante a atriz, e Sebastian, um músico de jazz, se conhecem e se apaixonam, enquanto tentam a sorte em Los Angeles, uma cidade que é ao mesmo tempo belíssima e feia, e de como lidam com a sua frustração ao perceber que, nem sempre, a vida é como a gente deseja. Porque apesar de se encontrarem e viverem uma história de amor, os caminhos apresentados pelo filme nos mostram que a vida é dura e nem sempre aquilo que desejamos acontece da forma que gostaríamos.

Depois de centenas de testes para papeis de atriz e sempre rejeitada, Mia está quase abrindo mão de seu sonho quando Sebastian aceita tocar em uma banda promissora e que está prestes a experimentar o sucesso. O problema é que o sonho de Sebastian é apenas abrir um clube de jazz, onde o som possa ser tocado como os músicos quiserem, sem a obrigação de serem comerciais. E é assim que os personagens, vividos magistralmente por Emma Stone e Ryan Gosling, entram num descompasso. 

Mas é um filme, né? E é um filme com música e canto e dança, mas tudo feito de forma tão maravilhosa que é impossível não achá-lo, pelo menos, encantador. Dividido em blocos centrados cada um em uma das estações do ano, no final da história somos brutalmente apresentados à realidade da vida: porque se tudo levava a crer que Mia e Sebastian alcançariam os seus sonhos e viveriam juntos a sua história de amor, somos transportados para cinco anos no futuro dos personagens e vemos que não, os finais felizes nem sempre são da forma que queremos e imaginamos. 

Mia alcança o sucesso e vira uma grande atriz de Hollywood. Sebastian larga a banda e, com o dinheiro que conseguiu com o sucesso, abre o Seb's, uma casa de jazz em que o gênero musical é exaltado. Mas os dois não ficam juntos. E acabam nem sabendo o que aconteceu um com o outro até que por um desses acasos do destino (e dos roteiros da vida), eles se vêem novamente de frente um ao outro, experimentando aquela sensação de "e se nós tivéssemos ficado juntos?". E que cena, meus amigos, que cena maravilhosa!

Sentado naquela sala escura, vendo e vivendo a história daqueles personagens, foi impossível não pensar na minha própria vida. Eu, que acabei de sair de um relacionamento, de uma história de amor, chorei um pouquinho bastante, lavando o meu rosto com o final daquela história e pensando que nem sempre um final feliz é como nós imaginamos que ele deveria ser. Porque sim, é possível ser feliz por outros caminhos, mesmo que alguma história tenha sido interrompida e ficado no meio do trajeto. Afinal, uma história de amor ter um fim não significa que ela não foi vivida intensamente ou que não valeu a pena.

O que aprendemos, no final das contas, é que são os nossos caminhos, as vidas que compartilhamos, que nos levam até onde devemos chegar. E são as nossas histórias, musicais, dramáticas ou verdadeiras comédias pastelão, que nos transformam nas pessoas que por fim acabamos nos tornando. 

E eu só tenho que agradecer a La La Land e ao diretor Damien Chazelle por me fazer sorrir e chorar, ao mesmo tempo em que me fizeram lembrar que sim, as nossas histórias sempre valem a pena.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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