quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O Desafio de Samuel





A rotina era a mesma de toda segunda-feira pela manhã. Preguiçosa e arrastada. No meio daqueles rituais matinais (toma banho, toma café, escova dente, etc...), minha irmã me liga:
“Ele vai nascer hoje. A médica decidiu que é melhor.”
Ele é o Samuel, meu segundo sobrinho e também afilhado. A gravidez da minha irmã no geral foi tranquila, mas exigiu alguns cuidados maiores agora no final. O parto estava previsto par alguns dias mais à frente, mas a médica optou por adiantar para não desencadear os riscos que vinham evitando.

Quando entrei para o Barba Feita, minha primeira sobrinha, Manuela, já havia nascido. Lembro-me do exato momento que vi sua foto pela primeira vez (eu não pude acompanhar o nascimento de perto, estava no trabalho). Lembro-me quando a peguei no colo pela primeira vez e senti o seu cheiro: era exatamente o mesmo da mãe dela, que eu identifico desde que me conheço por gente. Lembro-me dos traços que a genética nos fez ter em comum e que o tempo fazia aflorar cada vez mais. Lembro-me de ter refletido verdadeiramente pela primeira vez a respeito da concepção de um novo ser: como era fantástico haver, de repente, mais uma pessoa com parte do meu DNA no mundo; mais uma pessoa com o sobrenome Brazão Sobral.

Samuel já veio sem toda essa mágica da primeira vez. Mas com a mesma expectativa. Manuela sempre disse que ele seria menino, antes mesmo da confirmação. E ainda lhe deu um apelido que, embora não tenha nada a ver com o nome (que demorou a ser escolhido), certamente vai ser disseminado na família: Bibo. Sabíamos pelo ultrassom que ele era bochechudo e cabeludo. Provavelmente, terá olhos claros como os pais e a irmã. Já sabemos que parece ser mais quietinho que a Manuela (tendo em vista as primeiras horas de vida). Se terá o mesmo cheiro ou não, ainda não sei; não o pude pegar no colo até o momento. Porém, certamente saberei quando tivermos nosso primeiro contato.

Independentemente do que ele já traz com ele e é da sua natureza, Samuel chega num mundo tão duro quanto o que a sua irmã aterrissou três anos atrás. Mas por ser homem, há um desafio ainda maior. Recordo-me de ler um texto do meu cunhado no Facebook, comemorando o aniversário dele (que é três dias antes do seu filho – lamento informar, mas você vai perder todas as suas comemorações pelos próximos anos da sua vida...) e dizendo que seria uma grande missão não deixar que o Samuel se torne tudo aquilo que ele busca combater nos outros homens, em especial seus alunos. Como criar um cidadão que não seja machista, misógino, autoritário e intolerante? É uma baita responsabilidade.

Aproveitando para uma conversa aqui de família: meu cunhado é um cara incrível. Conheço o rapaz desde os 15 anos de idade e sei um bocado sobre ele por esse motivo. Mas as qualidades que surgiram com o seu amadurecimento só me orgulham de tê-lo com o companheiro da minha irmã. Juntos, os dois, não tenho dúvida de que farão do Samuel uma pessoa melhor, um homem tão tolerante e amável quanto o pai, e humano e benevolente como a mãe. E certamente contarão com ajuda de toda a família, em especial dos tios e padrinhos.

Não houve preço que me pagasse ver a felicidade da Manuela quando ela soube que o irmão havia nascido. Eu estava bem ao lado; ela, já cansada pela espera, havia se distraído no celular do tio Rafael. No exato instante em que foi informada que o Bibo havia chegado, seu rosto se iluminou e um dos sorrisos mais genuínos que vi na vida surgiu. Ela ficou encantada e ainda sem muito entender quando mirou aquele pacotinho pequeno e pouco interativo (talvez imaginasse que ele já sairia da barriga direto pra brincar com ela de pique). Mas logo pediu um beijo do pai e perguntou pela mãe. A família está se conhecendo ainda; porém, sem dúvida, já são uma bela família.

Meu ano de 2014 começou com o nascimento da Manu e foi um dos melhores anos da minha vida – se não o melhor. Tomara que Samuel traga esses bons ventos também para 2017. 

Bem-vindo, meu sobrinho! E obrigado por tudo desde já!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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