sábado, 14 de janeiro de 2017

O Que é Música Boa?





Oi, gente, olha eu aqui outra vez depois de um pequeno recesso. E sobre o que escrever no primeiro texto do ano? Deparei-me com esse dilema nas duas últimas semanas. Sempre gosto de fazer um balanço do ano velho em meu primeiro texto do ano novo para o Barba Feita, mas  já estamos praticamente na metade de janeiro, e eu não tenho muito mais a acrescentar, além de tudo que já foi dito sobre 2016, que foi um ano difícil e etc. O meu também foi, não mais que 2015, mas foi, e chega de ficar remoendo o que passou.

Então, pensei que começar o ano discorrendo sobre música, seria um ótimo assunto para abrir minha coluna nesse 2017. Mas, infelizmente, não vou falar de música boa. Mas, o que é música boa, afinal? Importante que fique claro que não sou nenhum especialista no assunto, apenas um mero apreciador de música de qualidade.

Tudo começou no último sábado, quando o apresentador Luciano Huck transformou seu programa da Rede Globo, no Caldeirão de Ouro, uma alusão ao Globo de Ouro, programa musical dos anos 1980, prática que ele tem adotado nos últimos quatro ou cinco anos, quando recebe no palco, sempre no último programa do ano, os 10 artistas mais tocados durante o ano inteiro. Dessa vez, o especial foi ao ar no primeiro Caldeirão de 2017, e não no último de 2016, como de costume. E, por acaso, depois de um almoço familiar, na companhia de pai, madrasta e cachorro, numa cidade onde não se tem nada de mais interessante pra fazer, me afundei no sofá e assisti ao programa, que nunca assisto, diga-se de passagem, por motivos de Luciano Huck mesmo.

Confesso que eu estava curioso para saber quais foram as músicas mais tocadas em 2016, mas apesar de passar muita raiva, não me surpreendi com o repertório ouvido à exaustão pelo maravilhoso povo brasileiro. Acontece que, tirando a oitava posição, Amei Te Ver, do Tiago Iorc, a melhor música das 10 mais, em minha opinião, todo o resto, pra mim, era um amontoado de porcaria. E tudo bem gostar de porcaria, eu gosto de porcaria, mas as porcarias prevalecerem entre as mais ouvidas durante um ano inteiro, me deixou bem triste.

Pra quem não viu o programa e quer se situar, a seleção foi a seguinte: em décimo lugar Bom, da Ludmila. Ouvi raríssimas vezes, nem sabia que o nome da música era esse, mas ok, Ludmila em décimo lugar tá aceitável, tem umas musiquinhas legais. Em nono, Thiaguinho, com Cancun. Até gosto do cantor, tem uma voz boa, mas eu NUNCA tinha ouvido essa música, sem nenhuma graça por sinal, nenhum refrão chiclete, música bem chatinha. Na oitava posição Thiago Iorc, uma injustiça. Em sétimo lugar, 50 Reais, de uma tal Naiara Azevedo, que eu só descobri a existência quando apareceu nos Melhores do Ano, do Faustão, no mês passado. A sexta posição foi a pior de todas, pois eu não só nunca tinha ouvido a música como nunca vi as fuças da dupla Kauan e Mateus, intérpretes de O Nosso Santo Bateu (que nome terrível!). Quinta posição ficou com Maiara e Maraísa, ou seria Simone e Simaria, talvez fosse Simone e Maraísa? Não importa, a música era 10%. O quarto lugar foi para Anitta e sua Sim ou Não. Esperava que Anitta ficasse ao menos com o segundo lugar. Diante do quadro musical apresentado, fiquei chateado com sua quarta posição. O desnecessário Wesley Safadão levou a medalha de bronze, por Coração Machucado, outra música que ainda não tinha chegado aos meus preciosos ouvidos. O segundo lugar foi de Marília Mendonça com a “elegante” Infiel. E o primeiríssimo lugar ficou com a desconjuntada dupla Jorge e Mateus e Sosseguei.

Durante a apresentação do programa, e diante de tantas canções desconhecidas, fiz esta postagem no Facebook:
“Você percebe que tem um gosto musical minimamente bom, quando não conhece quase nenhuma música das mais tocadas do ano.”
A postagem gerou alguns comentários, uns já esperados e outros que me surpreenderam. Dentre os surpreendentes, o de uma amiga me deixando a par de uma tal Deu Onda (Meu Pau Te Ama). Fui me inteirar do novo hit do momento e esta foi minha reação.


Realmente é de uma vergonha atroz que algo do tipo seja gravado e disseminado por aí, mas muito pior é pessoas gostarem, a ponto de virar uma das coisas mais tocadas um ano inteiro. Como hit de carnaval, por exemplo, onde proliferam refrãos fáceis e vulgares, é compreensível, mas um ano, são 365 dias sendo executada, mais de uma vez ao dia. É muito lixo mental intoxicando a mente de uma população que naturalmente já tem preguiça de pensar.

Entre nós, colunistas do Barba Feita, os gostos e opiniões são múltiplos. Erguemos a bandeira do preconceito zero, o que inclui o preconceito musical, do qual sou acusado muitas vezes por alguns colegas, em especial Leandro, aquele das segundas, que adora uma porcaria. Ô menino pra gostar de uma porcaria (ainda me refiro à música)!

Mas não acho que sou um preconceituoso musical, pois sempre ouço o que anda na boca do povo, antes de emitir qualquer opinião contrária, e muitas vezes me rendo a algumas porcarias, reconhecendo que se não posso fugir delas o melhor é render-me e gozar de amor e alegria. Não sou turrão, nem idiota a ponto de negar o inegável: certos refrãos são mesmo irresistíveis. E não raro me vejo tendo que admitir meu guilty pleasure, como Bumbum Granada e Malandramente.

Recuso-me a chamar Bumbum Granada de música, pois não é. É sim um som, de letra aparentemente desconexa, com algumas palavras insistentemente repetidas, que parecem de fácil entendimento dos moradores da comunidade onde saíram os MCs Zaac e Jerry. Mas independente da mensagem na letra, a verdade é que quando ouço o “bomba, bomba, bomba, lomba, lomba, lomba, taca, taca, taca”, na voz grave de um dos MCs, fico louco pra descer até o chão e ralar meu bumbum no asfalto. Eu não me orgulho disto, mas preciso ser honesto. O mesmo acontece com Malandramente, tirando a parte de descer até o chão, fico numa vibe mais hetero, algo como beber umas cachaças e bater coxa num boteco. Disto me orgulho bem menos, mas contei só pra mostrar que não, eu não quero pagar de intelectual com refinado gosto musical, que menospreza a expressão artística popular que vem das favelas, da região centro-oeste ou dos fundos de quintal da vida.

Tento ser aberto a tudo e quebrar meus próprios paradigmas e preconceitos, mas quando se trata de música, sou bem chatinho mesmo. Bons tempos aqueles em que Caetano, com Sozinho, e Tribalistas com Já Sei Namorar e Velha Infância, eram as mais tocadas. Música feita e interpretada por mentes pensantes, que entendiam que pra virar hit a letra até precisava ser fácil, mas não necessariamente fútil. Rita Lee e seu Amor e Sexo, Vanessa da Mata com seu Ai, Ai, Ai, onde estão vocês?

Talvez esses artistas sejam culpados pela invasão medonha de tanta coisa ruim na cena musical brasileira, que assola os ouvidos mais seletivos há algum tempo, pois não parecem muito preocupados em criar hits com conteúdo que caia no gosto da grande massa. Já se colocaram num patamar em que não precisam disso, e não precisam mesmo, foram elevados a esse panteão quando o país ainda valorizava música de verdade.

Em contrapartida, inúmeros artistas novos invadem a cena musical de tempos em tempos, fazendo um som cheio de qualidade e personalidade, e fora um nicho muito específico, ninguém mais ouve, porque diferente dos funks, sertanejos universitário, pagodes e companhia ilimitada, esses artistas não aparecem no Caldeirão do Huck, no Faustão, no programa da Sabrina, no Faro, no Mion, nem tocam em rádios populares. Música também é costume e as próprias mídias fazem questão de acostumar sua massiva audiência com toda a porcaria produzida no Brasil. Enquanto isso, artistas como Johnny Hooker, Liniker, Tulipa Ruiz, Filipe Catto, Tiê, Criolo, Jaloo, Alice Caymmi e tantos outros, tornam-se cults, restringidos a um público ávido por músicas que tenham algo a dizer.

Como música também é diversão, ela pode ser um refrão puramente melódico e inútil com rimas fáceis, não se deve transformar essa arte tão maravilhosa em algo chato jamais. Mas saibamos dosar letras profundas com o puro som raso, que serve só pra sacudir o esqueleto e cair na folia. Afinal, música boa é aquela que mexe com a gente, seja o corpo ou a alma. E no dia em que o palco de Faustão ou Geraldo Luís for dividido por Luan Santana e Alice Caymmi ou Criolo e Marília Mendonça, não ficarei mais tão irritado com o populacho.

Em tempo: Acabei de assistir no Vídeo Show, os bastidores da gravação do novo clipe do engodo Cláudia Leitte, em parceria com MC Dennis, o mesmo produtor de Malandramente. Claudinha Milk não me desce, é apenas uma cópia ambulante de tudo que faz sucesso. No novo trabalho, ela deixa de tentar imitar Ivete e investe pesado no estilo Anitta. O nome da canção é Eu Gosto e, apesar da minha aversão pela intérprete, admito que gostei. Eis que nasce o mais novo hit das paradas de sucesso. 

Ps.: Um agradecimento especial ao interino Maurício Rosa, um querido, sempre disponível quando solicitado. Obrigado Mau!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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