domingo, 1 de janeiro de 2017

Pra Lembrar, Basta Esquecer





De tudo que dói em separações, nada é pior que o depois. Durante há choro, durante há raiva. Depois só resta a casa bagunçada pra arrumar.

Quando finalmente superamos uma perda, significa que teremos que, então, enfrentá-la de novo. Significa que, para esquecer, temos que lembrar.

Quando perdemos um ente querido e não mexemos em seus pertences.

Quando brigamos com um amigo, e esbarramos naquele cartão sarcástico que ganhamos no último aniversário.

Quando terminamos uma relação e temos que encarar a famosa caixa com tudo do outro, que não é mais nosso. Toda aquela parafernalha romântica que fez a gente amar.

Sempre, para esquecer, vamos ter que lembrar.

A gente tira o dia para começar do zero. Chora enquanto vai arrumando gavetas e esbarrando com cartas trocadas com amigas de infância. Muitas fases, muitas reconciliações, muitas besteiras potencializadas e somatizadas em devaneios adolescentes.

A gente começa a lembrar de coisas que já não passavam pela nossa cabeça há tanto tempo. De amigos que se foram. De romances que azedaram. De dores que ainda doem, lá no fundo.

Aí você lembra da blusa preta com zíper no bolso que eu só usei uma vez e deixei na sua casa e nunca pude pegar de volta. De raiva, não devolvi aquela sua outra verde-limão que gostava de usar pra dormir.

Lembramos do chinelo velho, que ficava só no quartinho dos fundos pra caso precisasse. E se eu talvez precisar dele agora?

Tento fugir, mas pra esquecer, vou certamente lembrar.

E naquela outra casa que ficou o meu livro preferido. Que compramos no aeroporto e eu devorei deitada na rede, enquanto você me olhava e dizia que eu ficava bem de óculos. Não aceito entrar numa livraria e comprá-lo de novo. E não gosto de pensar que você talvez nem tenha lido também. E logo depois esbarro em um livro seu que ficou comigo, mas terminamos quando eu estava no meio e eu não quis continuar, por medo de te odiar.

Tenho certeza que pra esquecer, ainda preciso lembrar.

E teve um casaco que nem lembro a cor direito, perdido na casa de alguma amiga. E não cabe em mais ninguém.

Teve também minha jaqueta verde de couro que custou mais do que eu poderia pagar. A gente perde amigos, mas não uma jaqueta verde de couro.

Um vidrinho de remédio, um tênis vermelho e um óculos escuros: tudo perdeu-se no ar.

Eu tento esquecer, e volto a lembrar.

Lembro daquela foto que tiramos com a sua Polaroid e eu deixei você guardar. Era pra lembrar de mim. Fiquei sem foto, sem você e sem cópia.

E tantas outras fotos dessa nossa era digital. Será que apago? Ou será melhor guardar? Eu não deveria olhar pra elas novamente, mas quem tem coragem de deletar?

Afinal, por mais que eu precise esquecer, sei que também preciso lembrar.

E sigo a doutrina de guardar tudo no fundo do armário para não doer.

Refaço a decoração do meu quarto pra não parecer que tem um pouco de você, ou de você.

Nunca mais abro o cartão que você trouxe de fora pra mim com uma dedicatória linda, mas deixo ele preso no mesmo lugar, pra mostrar que isso é amadurecer.

Faço e refaço os caminhos da vida.

E e entendo, enfim, que pra lembrar, basta esquecer.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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Um comentário:

Laura Frossard disse...

Que linda! Nunca vou querer te esquecer...vou sempre te lembrar...