domingo, 22 de janeiro de 2017

Primeiramente, a Empatia





Normalmente, para a escrita de artigos acadêmicos, eu parto do princípio de duas hipóteses/fatos, para gerar meu conteúdo de forma coerente. Ainda que essas premissas não apareçam em meu texto, eu preciso escrevê-las, tirar da cabeça, para encarar e deixar que meus dedos façam o restante do trabalho.

Resolvi usar a fórmula para o Barba Feita também. 

Fato 1: A magia do saber imaginar.

Quando a vida se tornar amarga demais para ser encarada, pare um minuto, respire e feche os olhos. Imagine uma nova história, novos desfechos e novas possibilidades. Imagine o mundo real podendo atingir outros patamares sem, necessariamente, terminar em uma grande falha todas as vezes. 

Fato 2: O legado que inspira.

No fim de 2016 perdemos, numa tacada só, a revolucionária Carrie Fisher e sua fabulosa mãe, Debbie Reynolds. Atrizes, pessoas, humanos morrem. Seus legados ficam. E Carrie disse: peguem seus corações partidos e os transformem em arte. 

E quando você resolve colocar a vida real dentro de uma tela e aproximar de pessoas que insistem em não colocar o pé pra fora de suas zonas de conforto? Ken Loach fez isso com sua obra prima Eu, Daniel Blake. A história, que se passa na Inglaterra, mostra a árdua luta de um carpinteiro que sofre um ataque cardíaco e não pode mais trabalhar, ao tentar receber seus benefícios legais do governo inglês. A luta dele cruza com o desespero de Katie, mãe solteira com dois filhos pequenos, e sua incansável vontade de mudar sua realidade condenada há muito tempo pelos padrões horripilantes de descaso dos governantes com a população.

O filme é triste, bonito e inteligente como não esperaria menos de Ken Loach. Mas é mais que isso. É uma sirene ligada em volume máximo para chamar a atenção de que governos matam, descaso mata, olhar pro lado mata. Ignorar que as pessoas morrem de fome e não é somente por falta de oportunidade, por falta de saúde ou por falta de vontade, também mata. As pessoas morrem de fome por falta de empatia. Por falta de caráter.

O protagonista Daniel vai, aos poucos, perdendo bens materiais e ganhando fãs que lotavam a sessão das 21h num domingo de muito calor no Rio de Janeiro. Katie despertava olhares de pena e diálogos baixinhos que desacreditavam que esse seria seu fim. Mas o enredo, em seus passos lentos para que passasse de filme à vida real, vai transformando os olhares daqueles que talvez não tinham parado para pensar em como a desigualdade e a falta de comprometimento daqueles que ocupam as posições mais importantes num país afetam tão diretamente um largo número de pessoas, ainda que para nós - classe média - a dor se mostra mais latente no aumento das passagens aéreas do que no desespero de dormir com o ronco da própria barriga.

Para um bom paneleiro de plantão, esse filme é uma aula. É cômico em seu conversar trágico. É forte demais para quem não gosta de ver a fome. Fome de estômago e fome de coração. Quem já deixou de fazer duas ou três refeições para que seus filhos possam comer (e não perceberem o tamanho do problema que senta à mesa com eles), deve ver esse filme para colarem um pedacinho desse coração partido. Para quem nunca soube o que é fome, veja o filme para sacudir sua perspectiva sobre necessidade, ajuda e dever.

É engraçado estar prestes a levantar de sua poltrona num cinema que custou mais de trinta reais, de coração partido com a história e seu desfecho e, principalmente, por saber que isso é muito mais real do que parece, e de repente ver que a arte uniu os presentes ali num uníssono aplauso caloroso seguido de "Fora, Temer!".

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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