sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Quando Saí do Cinema Com Vontade de Cantar





Alguns filmes parecem tão frágeis quanto aquelas caixinhas de música que vem com uma bailarina rodando. Ou tão delicados como globos de vidro com neve dentro. La La Land poderia se encaixar perfeitamente nesta característica. Ele é pungente.

Quando disse isso, um amigo retrucou: “mas pungente pode ser um sinônimo para algo torturante, dilacerante”. Sim, e é. O filme é tão intenso que nos corta como uma navalha. É um misto de sensações muito fortes: dor, sorriso, tristeza, saudade, felicidade... Não existe a possibilidade de sairmos da sala de projeção da mesma forma como entramos. 

Eu era um cara que sempre achou um saco assistir musicais. Sempre era torturante demais. “Mesmo com a beleza de Madonna, evite Evita, eu sempre dizia. O badalado Chicago, mesmo com a estonteante dupla formada por Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger também não conseguiu me animar. E eu também tinha aqueles traumas infantis que me faziam ter ojeriza a qualquer coisa cantada. Tinha pavor de Gene Kelly. Nunca achei que alguém pudesse ser feliz cantando na chuva pois sempre detestei molhar os pés. Tinha antipatia pela Julie Andrews em A Noviça Rebelde, e por aí vai. 

As coisas só começaram a mudar o rumo quando fui pego de surpresa e fiquei encantado com a beleza e criatividade de videoclipe de Moulin Rouge, que também contava com a maravilhosa Nicole Kidman. E, talvez por estar em um momento tão complicado em minha vida, me apaixonei pela Anne Hattaway e Hugh Jackman no clássico Os Miseráveis. E foi a partir desses dois filmes que me permiti voltar ao passado e assistir tantos musicais que outrora odiava. 

Logo no primeiro minuto, La La Land já impressiona com o sensacional trabalho de direção com o plano sequência de um engarrafamento e que mistura o clássico do sapateado com elementos contemporâneos: skates, bicicletas e movimentos de parkour. “Um musical moderno”, como o diretor Damien Chazelle convenceu os produtores de Hollywood a apostar no filme, que resgata, através de várias referências, o melhor do clima noir e do cinema entre os anos 1940 e 1960 como Cantando na Chuva, Sweet Charity, Funny Face, musicais de Ginger Rogers e Fred Astaire e até a valsa de A Bela Adormecida para a cena em que o casal dança e voa num observatório. 

Os ótimos Ryan Gosling e Emma Stone são Sebastian e Mia, dois sonhadores que se apaixonam diante dos cenários hollywoodianos de Los Angeles (L.A., daí a brincadeira que resultou no nome do filme). Ele, um pianista tentando abrir um estabelecimento para os amantes do jazz. Como não tem dinheiro, toca teclado em uma banda pop. Ela, uma atendente de uma cafeteria dos estúdios da Warner que busca, em infrutíferas tentativas, a carreira de atriz. Entre diversas decepções e frustrações do cotidiano, eles vão cada vez mais se aproximando na perseguição dos seus sonhos. 

E a pungência de La La Land começa exatamente com esse cenário fantasioso onde eles se encontram: ali tudo é perfeito, intenso e extraordinário. Quando estão juntos, sonham. Sorriem com os olhos, são crianças, Wendy e Peter Pan. Cantam e dançam de uma forma desajeitada e, mesmo assim, são encantadores. Caminham abaixo da mesma janela em que Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se olharam em Casablanca. Simplesmente sonham e nos arrebatam durante as quatro estações do ano.

Mas o que aconteceria se os sonhos continuassem a ser perseguidos? Que alternativas o destino reservaria ao casal se os caminhos fossem outros? Seria melhor continuar sonhando? Ou vencer a vida pelo cansaço através da insistência por mais que os sonhos parecessem impossíveis de serem realizados?

La La Land resgata uma pureza no espectador. Como disse no início do texto, é impossível sair da sala de projeção da mesma forma que se entrou. Somos convidados a sorrir e a chorar copiosamente. Não um choro de tristeza, mas de redenção.


La La Land foi consagrado como o grande vencedor na 74ª edição do Globo de Ouro, concorrendo a 7 estatuetas e ganhando todas as categorias: Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Roteiro, Melhor Direção, Melhor Trilha Original, Melhor Atriz de Comédia ou Musical (Emma Stone), Melhor Ator de Comédia ou Musical (Ryan Gosling) e Melhor Canção (City of Stars) batendo todos os recordes da premiação até hoje.


Obviamente, como sou um chorão, saí da sessão com o rosto inchado, mas também com uma incrível vontade de cantar. Assim como a personagem de Ryan Gosling, fiquei por horas assobiando City of Stars, cujo clipe você confere acima.

La La Land é fascinante, como a vida. Por mais que tracemos caminhos alegres ou tristes, tortuosos ou com atalhos, continua sendo inspiradora.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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