sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Quase Todo Mundo é Feliz em Janeiro




Sempre tenho a impressão de que quase todo mundo é feliz em janeiro: as pessoas ainda estão com aquela sensação de esperança e que tudo será diferente e melhor do que no ano anterior.  Quase todo mundo é feliz... Quase.

É verão, bom sinal... Já é tempo de abrir o coração e sonhar” está em looping na minha cabeça.  São dez para as dez da manhã, com sensação térmica de 40 graus.  Os primeiros dias do ano são ensolarados.  Devido a minha fotofobia, cada vez fica mais difícil poder caminhar pela vida.  Céu azul sem nuvens, raios ultravioleta.  Penso em um texto bacana para escrever a primeira coluna do ano e nada surge.  Eis que, sob o sol escaldante, me deparo com a imagem que ilustra a coluna.  Paro, observo e me emociono com o quadro.  Ao redor, pessoas vem e vão, sem se importar com a cena.  Afinal, alguém se importa com a invisibilidade hoje em dia?

O rapaz, um morador de rua que circula, oculto, por Laranjeiras e Botafogo, repousa sob a sombra da amendoeira no viaduto da Rua Pinheiro Machado.  Não existe colchão.  Seu leito é um resquício de uma embalagem tipicamente natalina, já devidamente consumida por pessoas que tiveram uma noite de luz semanas atrás.

Abraçado em seu corpo, sujo pelo tempo, uma personagem infantil da Disney, tão encardida quanto.  Teria ganho de presente?  “É verão, bom sinal... Já é tempo de abrir o coração e sonhar”.  Sonhar?  Afinal, o que o rapaz estaria fantasiando naquele momento?  Com um mundo mágico, cheio de castelos e aventuras?  Com seus heróis favoritos que algum dia povoaram sua imaginação?  Com um mundo onde alguém pudesse ao menos esticar-lhe as mãos?

Caminho em direção ao trabalho após registrar aquele fotograma, com um aperto no coração.  Dias antes estava tentando argumentar essa angústia... Como não se importar com quem idealiza sorrir sem hesitação? Como não se importar com alguém que deseja poder abraçar sem nenhuma relutância, encarar um olhar sem a preocupação em parecer resignado ou apenas encostar a cabeça em um travesseiro e, sem tormentas, dormir um sono justo, mesmo que sem sonhos, mas sabendo que no dia seguinte haverá um horizonte a explorar?

É verão, bom sinal... Já é tempo de abrir o coração e sonhar”.  Talvez em seu mundo, aquele rapaz seja feliz com seu papelão de caixa de panetones e sua Minnie encardida.  Ou talvez ele esteja naquele momento em que temos a sensação esperançosa de que tudo será diferente e melhor do que no ano anterior.  Afinal, em janeiro quase todo mundo é feliz.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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