domingo, 29 de janeiro de 2017

Serena





Ele a observava de longe. Saia curta, blusa branca, tinha um quê de tenista, "muito longe de ser uma Serena", pensava. Mas não conseguia parar de olhar. "Será que ela vai me notar?". Tentou ficar olhando fixamente durante um bom tempo, quem sabe a moça fosse sensitiva o bastante para percebê-lo de longe, mas ela estava mais preocupada com a conversa com as amigas.

Ela se despediu, foi embora, e ele pensou em segui-la mais uma vez, mas de repente percebeu que a vida de stalker não era pra ele. Voltaria mais um dia para casa e se aliviaria sozinho pensando na moça que sequer sabia de sua existência, sem perceber que na mesa ao lado uma jovem deixava o livro de lado para o observar e pensar o quanto aquele rapaz tímido era interessante.

Alguém passou rápido demais pela mesa e, sem querer, derrubou seu livro. Desculpe, ele disse meio que sem olhar para ela; estava atrasado, precisava correr para o emprego e estava virado. Ainda chegou a tropeçar em mais uma pessoa que o reconheceu, mas não teve tempo de dizer de onde o conhecera. Entrou no restaurante e a amiga o esperava.

- Acabei de topar com aquele rapaz.
- O tal médico do aplicativo?
- Sim, ele mesmo. E parece que na verdade trabalha como garçom.

Ela riu.

- Porque será que eles mentem tanto?

Ele ficou pensando em que resposta dar para a amiga, mas mudou de assunto.

- Está gostando do livro?
- Muito. Lia um pouco enquanto te esperava, mas acabei me distraindo com um rapaz que estava naquela mesa.
- Bonito?
- Magro, alto, barba por fazer, óculos, cabelos pretos assanhados. Meu tipo.
- Mas não tirou nenhuma foto pra eu ver?

Eles riram, ela obviamente não tirara nenhuma foto.

- Não, mas ele me parecia mais interessado numas meninas que estavam aqui antes de você chegar.
- Um tolo, se ele tivesse olhado para os lados.

Se ele tivesse olhado para os lados, teria encontrado o amor de sua vida. Se o outro não corresse tanto, não conseguiria chegar ao hospital e salvar a vida de uma menina que acabara de ser atropelada. Ela usava uma saia curta, blusa branca, tinha um quê de tenista. "Muito longe de ser uma Serena", pensou o médico.

Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e já foi colunista oficial do Barba Feita, às sextas-feiras; agora, entretanto, aparece por aqui esporadicamente, como convidado. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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