domingo, 8 de janeiro de 2017

Sobre Relacionamentos (Abertos) e Preconceitos





Há alguns dias, a youtuber Jout Jout postou um vídeo onde falava do término do seu namoro e assumia ter um relacionamento aberto. Até aí, ok. O que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas que criticavam essa forma de namoro, como se existisse uma forma CORRETA e uma ERRADA de um casal se relacionar.

Foi então que eu fiquei refletindo e relembrando de conversas que tive com algumas pessoas sobre esse tema. Já ouvi coisas como: "isso é pura safadeza", "isso é porque a pessoa só quer putaria", "eu prefiro nem saber", "eu prefiro ficar sozinho", "pra que namorar, então?" e por aí vai...

Eu não sei porque, mas ainda me assusto ao ver a dificuldade que as pessoas têm em respeitar configurações de relacionamentos que saem do que a sociedade impõe como adequado, ou seja, aquilo que existe naqueles antigos comerciais de margarina. Se já é difícil imaginar um casal com dois homens ou duas mulheres, imagina a dificuldade em aceitar sexo, namoros e casamentos com mais de duas pessoas. E por que a dificuldade em assumir que podemos sentir atração física por pessoas que não nossos companheiros? Mais uma vez, voltamos ao tabu que o sexo representa nas nossas vidas.

Pessoalmente, me soa muito mais estranho alguém dizer que sabe que o(a) companheiro(a) faz "coisa por fora", mas que prefere não saber, do que ouvir que um casal decidiu que seu relacionamento não seguirá os padrões estabelecidos e que eles se permitem sentir atração física e se relacionar sexualmente ou afetivamente com terceiros ou quartos ou quintos...

É bom informar que relacionamentos abertos não são, necessariamente, adotados por pessoas que não se amam e que é uma verdadeira bagunça sem regras! Pelo contrário. Relacionamentos abertos possuem regras claras e implícitas, porém, não são regras que restringem ou aprisionam os membros, uma vez que o objetivo é exatamente o oposto. A maioria dos casais abertos possui uma cumplicidade, amizade, paixão e liberdade maior com o parceiro do que membros de relacionamentos fechados. Em relacionamentos fechados, a regra básica se resume a: não trair o(a) companheiro(a).

E por que não reconhecer que podemos ter tesão por outras pessoas? E por que não respeitar que uma pessoa possa ter esse sentimento? Qualquer um está sujeito a isso, independente do gênero. Afirmar que homens têm libido maior que as mulheres é desconhecer mulheres e reforçar discurso machista de que "menino pode" e "menina não pode". O que acontece são questões sociais que impõem às mulheres um controle maior da sua sexualidade.

É verdade que relacionamentos gays são mais abertos que os héteros e os lésbicos. E por que seria assim? Na minha opinião, um relacionamento entre homens envolvem personagens que já venceram algumas imposições. No nosso país, uma mulher que sai com um cara na primeira noite é chamada de vagabunda pelo simples fato de querer viver sua sexualidade livremente. Homens não enfrentam isso. Além disso, questões relacionadas ao machismo reforçam que um relacionamento aberto heterossexual só é gostoso se forem duas mulheres e um homem na "brincadeira". Quantos homens você conhece que gostariam de ver suas esposas transando com outro cara? Acredito que poucos.

Portanto, as questões que envolvem os tabus de um relacionamento aberto e o poliamo estão ligadas mais a questões sociais do que pessoais. Não é o desejo que diz como você deve agir no seu relacionamento. É a sociedade. E é claro que existem milhões e milhões de pessoas que pessoalmente só querem um relacionamento fechado e isso é muito legal! Porém, devemos reconhecer e aceitar que existem maneiras diferentes de transar e amar e elas devem ser respeitadas.

Posso dizer com segurança que em um relacionamento, sempre deve prevalecer a preferência do que tem a cabeça mais conservadora. Ou seja, se uma pessoa quer ser aberto e a outra fechado, o ideal é seguir para o fechado, pois forçar a abertura pode violentar o outro por todo o contexto social que foi criado. O contrário é mais difícil de acontecer.

E quer uma dica para não errar num relacionamento e acabar entrando em uma fria? Converse sempre sobre sexo, sexualidade, desejo, tesão, liberdade, gostos e preferências. Além de melhorar o seu relacionamento, vocês se entenderão sobre o que gostam e ninguém vai ultrapassar os limites do outro.

E sobre o meu tipo de relacionamento? Isso não importa. O importante é que eu consigo entender e respeitar qualquer forma de amar ou gozar.

Leandro Faria  
João Geraldo Netto é marketeiro, barbudo, gay, soropositivo, ativista, apaixonado, inquieto, metódico, chato e muitas outras coisas. E o responsável pela coluna mensal Conversa + aqui no Barba Feita.
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