sábado, 21 de janeiro de 2017

Talvez Uma Epifania





Como se começa a amar alguém?

Amores da vida que duram três meses, começam com muita pegação e sexo de tirar o fôlego. Nada contra esse amor miojo, são super válidos e tenho até amigos que já o viveram a contento. Mas não consigo classificar essa fugacidade como amor. Só gostaria que as pessoas usassem as palavras certas, ou melhor, sentissem do jeito certo. Tesão, paixão, amor, epifania, cada um é um. Há que se tomar cuidado ao classificar o que se sente, para não tornar-se terrivelmente leviano.

Sinto-me em rota de colisão com esse sentimento e não consigo nomeá-lo de outra forma. Talvez minha definição de amor seja piegas e pueril, mas não encontro outro jeito de definí-lo. É um sentimento manso, que no meu caso começou em uma sessão de cinema entre amigos, há três anos, quando nos vimos pela primeira vez. E no meio de tanta gente (estávamos num grupo de oito pessoas), como na canção de Marisa Monte, Não Vá Embora, ele me encontrou. Veio até mim, e falamos sobre a literatura de Caio Fernando Abreu. Primeiro tiro. Como não amar quem ama Caio F.?

Quando nos conhecemos, ele namorava, mas meu encantamento foi inevitável, só conseguia pensar no quanto eu queria ter alguém como ele, para chamar de meu. Alguns meses depois (quatro para ser mais exato), nos reencontramos em um almoço, novamente cercados por muita gente. Eu estava ansioso para revê-lo, mas para minha grande surpresa, ele parecia estar muito mais. Sua euforia ao me ver foi tamanha, que me deixou um tanto quanto desconcertado. As coisas que ele me disse naquela tarde... Segundo tiro.

Pouco tempo depois daquele almoço, seu relacionamento acabou. Fui invadido por um sentimento dúbio. Senti o término do namoro, achava bonito os dois juntos, mas ao mesmo tempo, uma pontada de esperança. Teria eu alguma chance? Fiquei em silêncio por um longo período, não o procurei. O término tinha sido traumático, muitas mágoas e feridas abertas, que demoraram a cicatrizar. Falamos superficialmente poucas vezes, por mensagens. Mas um ano depois, convidei-o para meu aniversário. Deste convite, que foi carinhosamente recusado, em diante, não paramos mais de nos falar. 

As coisas agora estavam em outra configuração, não existia mais o empecilho dele ser comprometido, mas existiam outros, talvez, bem mais complexos, que necessitaria uma enorme paciência de minha parte se eu realmente o quisesse pra mim. E eu queria, muito. 

Fui paciente, fiz inúmeros convites para cinema, cafés, teatro, piquenique... Ele ficava empolgado, aceitava o convite, mas sempre arranjava uma desculpa para desmarcar em cima da hora. Percebi em sua atitude o medo de entregar-se a algo novo. Mesmo com toda minha cautela, sem fazer menção a qualquer outra coisa além de pura amizade, ele era escorregadio. Então, recuei.

Parei de fazer convites e deixei até de puxar assunto. Talvez aquele um ano pós-término de namoro não tivesse sido o suficiente para ele pôr as ideias e os sentimentos em ordem. Decidi dar um tempo pra ele e, principalmente, pra mim. Comigo, aquele papo de água mole em pedra dura... não funciona. Queria sentir também da parte dele a mesma urgência que eu sentia de elevarmos o que nos conectava.

Demorou menos do que eu esperava para ele me procurar. Queria me ver, sugeriu um passeio no parque. Fiquei feliz, mas como gato escaldado, não levei muito a sério, e foi minha vez de desmarcar o encontro. Já estava me desprendendo do que parecia apenas uma ilusão minha, um castelo de cartas. Era muito fácil se apaixonar por ele, mais fácil ainda amá-lo, por sua gentileza, atenção, docilidade, inteligência, uma infinidade de assuntos que nos interessava na mesma proporção, a curiosidade pelo mundo particular do outro e o interesse em conhecer o que o outro tem de diferente de você, sem falar naquele sorriso vasto de dentes grandes e branquíssimos 

Decididamente, eu não embarcaria em mais uma história platônica. Mas continuamos nos comunicando, e não me parecia possível que todas as mensagens e áudios trocados fossem de duas pessoas que desejam “apenas” serem boas amigas. Da minha parte não era, e se fosse da parte dele o acharia muito cínico e leviano. Me recusando a acreditar nessa possibilidade, parei de ter medo que ele se afastasse, caso eu dissesse com todas as letras que o queria mais que um amigo. Numa noite insone, às três da madrugada, fiz textão no WhatsApp e enviei sem pensar muito. 

No dia seguinte, a resposta, que li apreensivo. Poderia ser um fora monumental, o que da minha parte, significaria nenhum simples resquício de amizade virtual, romperia qualquer tipo de contato. Mas ele foi discreto e amoroso em sua resposta, deixando uma fresta aberta para um possível algo mais. Era a primeira vez que eu declarava meus reais sentimentos a alguém e tinha uma resposta positiva, ele não fugira. Também não se declarara, mas alterara com sucesso minhas configurações sentimentais. Terceiro tiro.

Desde que falei o que sinto por ele, não paramos mais de trocar mensagens. Ele me liga, e ficamos um tempão conversando sobre tantas coisas. Sinto que evoluímos. Não falamos de romance, namoro, sexo, nada disso. Talvez porque o processo para chegar até esses assuntos, quando duas pessoas adultas e maduras procuram um encontro de almas, seja bem mais lento e saboroso como uma costela assada no buraco por 24 horas. Uma experiência gastronômica única e inesquecível, bem diferente dos fast foods da vida, gostosos, mas fáceis de encontrar em qualquer esquina e de sabor esquecível.

Sempre que nos falamos, deixamo-nos com a promessa do encontro tantas vezes adiado, só os dois, assim que eu retornar a São Paulo. Quando acontecer, volto pra contar se é mesmo amor, ou apenas uma epifania ilusória, como tão bem descreveu Caio Fernando Abreu em seus textos cheios de poesia.

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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