sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Humanidade Está Enlouquecendo





Cada vez mais tenho medo da humanidade. Aqui mesmo na coluna semanal do Barba Feita eu já tinha dito isso algumas vezes, sobre algumas atrocidades que venho testemunhando ao longo do tempo, principalmente através das redes sociais. O ódio, a intolerância e a perversidade tem sobressaído. Fomos sempre assim ou as redes somente tem revelado o tamanho da metástase que tem assombrado o mundo?

Hoje acordei chocado com os comentários que li de algumas pessoas que comemoravam a morte da D. Marisa, mulher do ex-presidente Lula. A ex-primeira dama, depois de sofrer um AVC hemorrágico, teve diagnosticada a morte cerebral. A justiça não a puniu pelas supostas acusações, mas a sociedade, sim. Isso é tão patético e grave quanto o caso do rapaz que supostamente roubou um celular e foi executado a tiros por moradores de Caxias após ter seus braços e pernas amarrados. As pessoas estão perdendo a noção da barbaridade. O rapaz morreu sem ser julgado pela lei. D. Marisa morreu sem ser julgada pela lei.

Semana passada eu peguei um taxi e fiquei chocado com o discurso do motorista que, obviamente, nunca deveria ter verbalizado aquelas coisas para mim. Não nos conhecíamos e, portanto, não havia ali nenhuma intimidade para tal. Eu calmamente ouvi, mas ao fim, não consegui ficar calado, pois naquele momento eu era um usuário e estava pagando pelo serviço; e portanto, deveria ser respeitado. 

O cara era um militar reformado e estava contando que havia participado lá pelos idos de 1985/1986 de um protesto no Centro da Cidade, quando vários estudantes foram espancados. Na época, era uma manifestação liderada por movimentos estudantis por causa do aumento das passagens de ônibus. Vale lembrar que não existia o passe livre. 

Ele contou com detalhes sórdidos como eram realizados os espancamentos. “Quebrei muitas costelas daqueles estudantes FDP com aquelas listas telefônicas antigas, descendo a porrada”, ele disse. “Depois de bater muito, jogávamos eles em lugares distantes para não conseguirem nem voltar pra casa”, prosseguiu. “Na época, a imprensa nem tinha muito acesso, bem diferente de hoje em dia. Odeio esses jornalistas”. Detalhe: eu sou jornalista. E era um daqueles estudantes daquela manifestação no Centro do Rio.

Ao passar pela igreja dos Capuchinhos, na Rua Hadock Lobo, ele fez o sinal da cruz. E reparei que em seu taxímetro, havia um terço e uma imagem de Nossa Senhora das Graças. Pedi imediatamente que ele parasse o carro. 

- Ué, mas você não ia para Botafogo? 
- Sim, mas se você quiser que seu carro continue limpo, eu preciso descer agora. Preciso vomitar.
- Opa, está precisando de ir a um médico?
- Não. Quem precisa urgentemente de um médico é você. Tome. Fique com o troco.

Desci, batendo a porta sem sequer olhar para trás.

A população está se acostumando a cultuar o ódio. E esse sentimento, infelizmente, é irreversível. Em uma letra de uma canção do grupo Titãs chamada Dissertação do Papa sobre crime seguido de orgia (uma das músicas mais desconhecidas do grupo, talvez nunca tocada em shows e que está presente no sétimo álbum de estúdio da banda, chamado Titanomaquia, de 1993) o vocalista Branco Mello narra o cotidiano da violência social, de uma forma cruel. “O assassinato é uma paixão como o jogo, o vinho, os rapazes e as mulheres, e jamais corrigida se a ela nos acostumarmos. O crime é venerado e posto em uso por toda a Terra; de um pólo a outro se imolam vidas humanas”, diz a letra.

Portanto, se você curte, compartilha ou faz um comentário de ódio, comemorando a morte de alguém, você também é cúmplice. Se você tem um discurso hipócrita escondido atrás da religião, mas apóia o espancamento como uma forma de corretivo, você também é um criminoso.

Mais amor, por favor. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Selma Peres disse...

Estou igualmente perplexa com tudo isso. As pessoas realmente estão loucas, não têm menor constrangimento em demonstrar seus ódios, pelo contrário, acho que sentem prazer (ou gozo, como dizem os psicanalistas) nisso. Lamentável.

Marcia Marino disse...

Eu fico estarrecida com tamanha brutalidade e intolerância de certas pessoas. Existe um post no Facebook que diz "o ser humano precisa ser estudado pela NASA". Eu não consigo entender com a espécie humana pode ser tão contraditória. Lastimável.