sábado, 4 de fevereiro de 2017

A Melhor Vingança





Estou às voltas com a produção de meu primeiro livro. Após duas tentativas frustradas de escrever histórias de amor, finalmente encontrei meu tema ideal e estou absorvido por ele: vingança. Vingança é um tema tão vasto e com infinitas possibilidades que, aliado a minha trajetória pessoal, renderá uma história envolvente, saborosa e catártica.

Mas não é exatamente do meu livro que quero discorrer, e sim sobre esse desejo, que nasce e cresce nos corações ressentidos, rancorosos e que também já sofreram demais. Sou desses. Eu tenho ressentimentos, guardo rancores, e sim, já sofri bastante. Carrego comigo profundas cicatrizes que ninguém vê. Cicatrizes invisíveis, na alma, as piores que se pode ter. Logo, esse desejo, quase incontrolável, me acompanha desde muito cedo, desencadeado pelo bullying homofóbico sofrido desde que me entendo por gente.

Os ataques sempre são covardes, os abutres sempre andam em bando, e sejam eles físicos ou verbais, você nunca será capaz de se defender sozinho. O que resta é correr pra se proteger, fingir que não é com você e sofrer sua humilhação em silêncio, sentindo crescer dentro de si o desejo de que todos morram.

Conforme você cresce e amadurece, cria-se uma armadura. A crueldade explícita infantil e adolescente, dá lugar à pequenas e sutis maldades que você tira de letra. Colegas de trabalho e/ou faculdade invejosos que querem te passar a perna, “amigos” virtuais que jogam indiretas/postam comentários grosseiros/adoram causar discórdia nas redes sociais, e parentes serpentes, são as novas pedras no seu sapato. Com cinismo te provocam, tentam te desestabilizar e torcem pelo teu insucesso.   
Como leonino com ascendente em capricórnio e a lua também em capricórnio, mais as feridas de infância e um orgulho imenso, só consigo pensar em dar o troco, responder às provocações e planejar uma revanche. O sentir-me vilipendiado, rejeitado ou desprezado me causa dor física crônica. Preciso ir à forra. Quero sangue. Todos terão de pagar por não reconhecerem a pessoa maravilhosa que sou e me amarem muito.

Era esse meu pensamento até começar a escrever meu livro. Curiosamente, o processo de escrita despertou em mim o desejo de sentir diferente. Mergulhado nas histórias de vingança que sempre me fascinaram para compor o enredo, abarrotado de referências cinematográficas, teledramatúrgicas, literárias e musicais, chafurdo nesse sentimento para, de certa forma, expurgar os fantasmas do passado e, certamente, sairei dessa viagem transformado. 

O protagonista irá fazer o diabo para saciar sua sede de vingança, mas será que no final ele ficará satisfeito, sua saga vingadora compensará? Sinceramente ainda não sei, falta muito pro final. Mas o que posso afirmar agora é que depois de adulto, pretensamente maduro e já tendo passado por muitas e péssimas, a melhor vingança é ficar bem, ignorar a existência dos “espíritos obsessores” e estar em paz. 

Repetir com frequência o velho, clichê e sempre maravilhoso Mário Quintana também tem um efeito incrível:
"Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho. Eles passarão... Eu passarinho."
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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