domingo, 26 de fevereiro de 2017

"Bom Dia! Eu te amo!" (Oi?)





Há algum tempo conheci um cara, tudo estava fluindo da melhor maneira possível: conversas sem fim, risos, zoações, apelidos, cinema, vinho, beijos... Tudo caminhando para uma possível relação, até que uma bela noite quando eu dei um “tchau” e “boa noite”, meu WhatsApp recebeu uma mensagem que me surpreendeu: 
“Boa noite, meu gato! Te Amo!”
Fiquei ali por alguns instantes, somente olhando para a tela do celular. Sinceramente não sabia o que fazer e como agir. Resolvi fazer a Kátia Cega e fingi que não tinha visto, deliguei o wi-fi e fui dormir.

No dia seguinte fiquei pensando como faria, se simplesmente mandaria um bom dia, ignorando a mensagem anterior, ou se ficaria quieto. Resolvi ser protocolar e, em resposta ao meu bom dia, recebi em troca:
“Bom dia, vida. Bom trabalho! Te amo!"
Mas, como assim me ama? Nos conhecíamos há, no máximo um mês, e não dá para amar em um tempo tão curto. Sei que fiquei incomodado com essa situação que, para piorar, se repetiu outras vezes, até que, num belo dia, fui questionado: 
“Juh, você me ama?”
Eu não poderia mentir, disse que ainda não e paramos de ficar. Algumas semanas após o ocorrido, encontrei com dois amigos em comum e, durante nosso longo papo, fui informado que a pessoa em questão já tinha um novo amor e que, inclusive, falava que dessa vez seria para sempre. 

Desde então, fiquei pensando sobre o amor e cheguei à conclusão que as coisas hoje em dia estão completamente fora do eixo. Pois, o que acontece na verdade, é que a grande maioria confunde carência com amor. Sei que posso estar parecendo altamente insensível, mas a postura de um dia se amar fulano, no outro amar beltrano e no seguinte o vizinho dele, é a realidade em que vivemos. 

Hoje em dia o amor (assim como as relações) se tornou uma coisa descartável, uma vez que as pessoas já começam a se envolver com aquele pensamento: “se não der certo é só terminar”. Não existe mais um esforço, uma vontade de fazer dar certo. No lugar disso existe um grande desperto de ter alguém, de estar namorando, de preencher com a presença de algum outro um vazio que é seu.

O "Eu Te Amo" foi totalmente banalizado. Falar que ama virou uma expressão normal do dia a dia, tão normal quanto um bom dia. Conheço algumas pessoas que a cada balada encontram um novo amor, e o pior é que vivem como se realmente cada pessoa fosse o grande amor de suas vidas, com direito a sofrimentos e lágrimas. Aí um dia acordam e esse amor já passou, fazendo com que no final de semana seguinte já se encontrem amando outro alguém. Infelizmente, essa constante troca de amores deixou a imagem do amor desgastada e sem importância.

Muita gente acha errado quando diz que ama o outro e não ouve um “eu também te amo” de volta. Mas eu acho essa postura totalmente verdadeira e sincera. Como eu vou dizer que amo alguém quando não sinto isso? Como alguém prefere um eu te amo falso, do que a verdade? Eu não consigo ser do tipo de gente que distribui eu te amo como se fosse santinho em época de propaganda eleitoral.

Confesso que já tentei, mas a frase saiu mais falsa do que aquelas desculpas que inventamos para justificar ausência em algum encontro de família que não estávamos com o mínimo saco de comparecer. 

Sinceramente, não sei se as pessoas estão amando demais ou eu que tenho um iceberg no peito. Só sei de uma coisa: mediante toda essa realidade, estou começando a achar bem provável ouvir um “eu te amo” no lugar de um “bom dia” quando for à padaria amanhã.

Leandro Faria  
Júlio Ferraz, 33 anos, carioca, ator, escritor, cantor e uma pessoa quase normal nas horas vagas. Ama cartas, versos, melodia, sabores e sorrisos. Um sonhador apaixonado pela vida, que se recusa a ter dias tristes, monótonos, sem vida e opacos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: