domingo, 12 de fevereiro de 2017

Comédia Também é Arte





Os gêneros no campo do entretenimento são regularmente rotulados como melhores, piores, criativos, cópias, entre outros que poderiam me render a coluna inteira. E é claro que, tratando-se de rótulos, o que os acompanham são os prêmios e glórias. Por esse motivo não é nada comum esperarmos que uma comédia ganhe o Oscar de Melhor Filme. 

Isso pode se dar pelo simples fato da natureza humana se alimentar de drama. Nossa psique sofredora não vê beleza no sorriso se ele não vier como resultado de uma superação dolorosa. Seja porque a arte imita a vida, ou a vida imita a arte. A verdade é que a arte sofrida é lembrada, e a comédia esculhambada como boba ou sem valor. 

Vamos combinar que existem diversas facetas nessa equação. Particularmente, eu não sou apreciadora de comédias "pastelão" como dizem, tal qual American Pie e outros desse mesmo legado. Mas gosto de filmes despretensiosos. Comédias românticas que você sabe como vai terminar, porque o interessante é como vai chegar lá. E gosto de atores e atrizes que são intrinsecamente ligados à comédia e sacramentados como único possível talento. Diria que Cameron Diaz quebrou esse paradigma em Uma Prova de Amor (apesar de ser difícil você não se vidrar na genialidade da Abigail Breslin). Ou Kate Hudson em Good People e Le Divorce. Mas eu gosto delas (e de muitos outros) em comédias. 

Todo esse discurso foi para fomentar minha conclusão sobre a nova série original do Netflix, Santa Clarita Diet, com Drew Barrymore. Drew, outra player do gênero, consegue transformar um roteiro cheio de bizarrices em algo corriqueiro. É tão fora de proporção as coisas que acontecem na série, que a naturalidade de Drew acaba te dominando, de alguma forma. E de certa forma a gente continua assistindo para ver onde vai dar. Se fosse para ler uma sinopse sem especificar o gênero, eu apostaria que uma mãe que come carne humana seria o suficiente para rotular a série como terror. Mas é comédia. Uma tosqueira bem produzida, onde você sabe tudo que é faz-de-conta, e absorve todas as outras inúmeras lições que são reais, como relação com pessoas, família, valores e construção de sentimentos. Entre todos os personagens e de forma muito sutil - até boba. 

Mas aí você entende porque ela é uma atriz incrível. Aliás, todo o elenco é muito bem preparado. Você compra a história, mesmo sabendo que tudo é mentira, impossível e improvável. Você fica ali pra ver. Não interessa se isso nunca pudesse ser real: se você assiste The Walking Dead e pensa o mesmo, qual é a diferença? O gênero. Na comédia, o impossível vira nonsense para arrancar risadas e prender a audiência. Na ficção e drama, todo o resto do enredo vira obra prima. 

Mas a fotografia de Santa Clarita é excelente. Atende o que a série demanda. A direção é ótima: sem efeitos especiais extraordinários, cadáveres de boneco e sem pretensão de parecerem reais. O roteiro é completamente bem amarrado e sem delongas. No primeiro episódio você já sabe pra que veio a série. E você só vai embora quando acaba. 

Vi os 10 episódios disponíveis de uma só vez e afirmo: veria mais quantos tivessem. Porque mesmo numa história irreal de mortos-vivos comendo carne humana, parecia mais leve e saudável do que muito telejornal por aí.

Comédia também é arte. E como!

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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